Contabilidade pública e orçamento

Índices de liquidez e endividamento, com cálculos resolvidos

A análise das demonstrações contábeis transforma números do balanço em índices que respondem a perguntas simples: a empresa consegue pagar o que deve? Depende muito de dívidas? Os índices de liquidez e de endividamento são os mais cobrados, e todos saem de quocientes entre grupos do balanço. Quem sabe montar o balanço resolve a questão.

O balanço de partida

Usaremos os dados abaixo (unidades monetárias). Se precisar rever a estrutura, veja equação patrimonial e balanço.

Ativo Valor Passivo e PL Valor
Disponível (caixa e bancos) 100 Fornecedores 180
Clientes 200 Salários e encargos a pagar 70
Estoques 150 Empréstimos de curto prazo 50
Despesas antecipadas 150 Passivo circulante 300
Ativo circulante 600 Financiamentos de longo prazo 200
Realizável a longo prazo 100 Passivo não circulante 200
Investimentos 50 Capital social 400
Imobilizado 250 Reservas e lucros 100
Ativo não circulante 400 Patrimônio líquido 500
Total do ativo 1.000 Total passivo + PL 1.000

Conferência: ativo circulante = 100 + 200 + 150 + 150 = 600; ativo não circulante = 100 + 50 + 250 = 400; passivo circulante = 180 + 70 + 50 = 300. Ativo 1.000 = passivo (300 + 200 = 500) + PL 500.

Índices de liquidez

A liquidez mede a capacidade de pagar obrigações. Todos têm o formato “o que tenho / o que devo”, com horizontes diferentes.

Índice Fórmula Cálculo Resultado
Liquidez imediata Disponível / Passivo circulante 100 / 300 0,33
Liquidez seca (Ativo circulante - Estoques) / Passivo circulante (600 - 150) / 300 1,50
Liquidez corrente Ativo circulante / Passivo circulante 600 / 300 2,00
Liquidez geral (Ativo circulante + Realizável a longo prazo) / (Passivo circulante + Passivo não circulante) (600 + 100) / (300 + 200) 1,40

Observação sobre a liquidez seca: alguns autores também retiram do numerador as despesas antecipadas, por não serem conversíveis em dinheiro. Nesse caso, (600 - 150 - 150) / 300 = 1,00. A fórmula depende da definição da banca; leia a definição dada no enunciado e, se não houver, use a mais comum (retirar só os estoques).

Como interpretar

  • Maior que 1: para cada unidade devida no período, há mais de uma unidade de recursos correspondentes. Sinal de folga.
  • Igual a 1: cobertura exata.
  • Menor que 1: os recursos não cobrem as dívidas do horizonte considerado.

Liquidez mais alta não é sempre melhor: pode indicar dinheiro parado ou estoques excessivos. E os índices são fotografias de uma data: não dizem nada sobre o fluxo futuro de caixa.

O capital circulante líquido (CCL) complementa a análise: CCL = ativo circulante - passivo circulante = 600 - 300 = 300. É a folga de curto prazo em valor.

Índices de endividamento (estrutura de capital)

Mostram o quanto a empresa depende de capital de terceiros.

Índice Fórmula Cálculo Resultado
Endividamento geral (Passivo circulante + Passivo não circulante) / Ativo total 500 / 1.000 0,50
Participação de capital de terceiros Capital de terceiros / Patrimônio líquido 500 / 500 1,00
Composição do endividamento Passivo circulante / Capital de terceiros 300 / 500 0,60
Imobilização do PL Ativo imobilizado / Patrimônio líquido 250 / 500 0,50

Leituras:

  • Endividamento geral de 0,50: metade do ativo foi financiada por terceiros.
  • Participação de capital de terceiros de 1,00: para cada unidade de capital próprio, a empresa usa uma de capital de terceiros.
  • Composição do endividamento de 0,60: 60% das dívidas vencem no curto prazo. Quanto menor, melhor o perfil de prazo (dívidas mais alongadas).
  • Imobilização do PL de 0,50: metade do capital próprio está aplicada em imobilizado.

Há também o endividamento medido sobre o PL (capital de terceiros / PL). Muitas bancas usam esse nome para o terceiro índice acima. Preste atenção ao denominador: ativo total ou patrimônio líquido.

Efeito de operações sobre os índices

Questões típicas pedem o efeito de uma operação. Raciocínio: veja em quais grupos ela mexe.

  1. Pagamento de 50 a fornecedores com dinheiro: o disponível cai 50 (ativo circulante vai a 550) e o passivo circulante cai 50 (vai a 250). Liquidez corrente: 550 / 250 = 2,20, que aumentou (de 2,00). Isso ocorre porque o índice era maior que 1: reduzir o numerador e o denominador na mesma quantidade o eleva. Se o índice fosse menor que 1, cairia.
  2. Compra de mercadorias a prazo de 60: o ativo circulante sobe 60 (660) e o passivo circulante sobe 60 (360). Liquidez corrente: 660 / 360, cerca de 1,83, que diminuiu. Aumentar numerador e denominador do mesmo valor, quando o índice é maior que 1, o aproxima de 1.
  3. Compra de máquina à vista de 40: o ativo circulante cai 40 (560) e o passivo circulante fica em 300. Liquidez corrente: cerca de 1,87, que diminuiu. O imobilizado sobe, mas ele não entra no cálculo da liquidez corrente.
  4. Empréstimo de curto prazo recebido em dinheiro de 80: o ativo circulante sobe 80 (680) e o passivo circulante sobe 80 (380). Liquidez corrente: 680 / 380, cerca de 1,79, que diminuiu, embora a empresa tenha mais dinheiro.

Lição geral: a direção da variação depende de o índice estar acima ou abaixo de 1 e de a operação afetar numerador, denominador ou ambos.

Análise horizontal e vertical (visão geral)

  • Análise vertical: cada item como proporção de um total (por exemplo, estoques como parte do ativo total: 150 / 1.000 = 15%).
  • Análise horizontal: variação de um item entre períodos. Se os estoques passaram de 150 para 180, a variação é (180 - 150) / 150 = 0,20, ou 20%.

Erros comuns

  • Trocar numerador e denominador.
  • Usar o ativo total no lugar do circulante na liquidez corrente.
  • Esquecer que o realizável a longo prazo só entra na liquidez geral.
  • Concluir que “mais liquidez é sempre melhor”.
  • Ler a composição do endividamento invertida: menor é melhor.

Próximos passos

Fontes e atualização

  • Edital do TRF 1 (FGV): o conteúdo de uma especialidade de contabilidade lista a análise das demonstrações contábeis, com indicadores de rentabilidade e lucratividade e as análises vertical e horizontal.
  • Lei 6.404/76, texto consolidado: art. 178 e 179, base da classificação das contas em circulante e não circulante usada nos índices.

Os cálculos foram conferidos. As fórmulas podem variar de um autor ou banca para outro: siga a definição do enunciado.

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