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Pronomes pessoais, demonstrativos e possessivos: emprego na prova

As bancas cobram pronomes de duas maneiras: pela forma (eu ou mim, o ou lhe, consigo ou com você) e pela referência (a que termo o pronome se liga e se há ambiguidade). Este guia cobre os pessoais, os demonstrativos e os possessivos. Colocação (próclise, ênclise) está no guia de colocação pronominal e os relativos, no guia de pronomes relativos.

Pronomes pessoais: reto ou oblíquo?

Os retos (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) têm função de sujeito. Os oblíquos são complementos e se dividem em átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) e tônicos, usados depois de preposição (mim, ti, ele, si, nós, vós, eles, comigo, contigo, consigo, conosco, convosco).

Eu ou mim

Regra: depois de preposição, usa-se o oblíquo tônico: “para mim”, “entre mim e você”, “sobre ti”. A exceção é quando o pronome é sujeito de um verbo no infinitivo: o sujeito pede forma reta. Compare:

  • “Isto é para mim.” Complemento da preposição: oblíquo.
  • “Deu o relatório para eu revisar.” “Eu” é o sujeito de “revisar”: reto.
  • “Entre mim e você não há segredos.” Correto. “Entre eu e você” é erro.
  • Com “como”, “exceto”, “menos” e “salvo”, a gramática tradicional pede a forma reta (“todos foram, exceto eu”; “estudo como tu”). Como há divergência entre autores sobre outras palavras dessa lista, as bancas costumam cobrar com mais segurança o par “entre mim e você” e “para eu fazer”.

Truque de teste: substitua o pronome por “ele”. Se “para ele fazer” soar natural com o verbo seguinte, é sujeito, logo “para eu fazer”.

O, a, os, as ou lhe, lhes

“O/a/os/as” fazem papel de objeto direto; “lhe/lhes” fazem papel de objeto indireto, ligados a pessoa. Descubra a transitividade do verbo.

  • “Convidei o candidato.” (convidar: transitivo direto) ⇒ “Convidei-o.”
  • “Obedeço à chefia.” (obedecer: transitivo indireto) ⇒ “Obedeço-lhe.”
  • “Agradeci ao colega.” ⇒ “Agradeci-lhe.”
  • “Informei o prazo ao candidato” ⇒ “Informei-lhe o prazo” (OI de pessoa) ou “Informei-o do prazo” (a pessoa como OD, o prazo como complemento preposicionado).
  • “Assisti ao jogo.” ⇒ “Assisti a ele”, pois o objeto indireto de coisa, em regra, não é substituído por “lhe”.

Armadilha frequente: verbos como mandar, deixar, ver, ouvir e sentir seguidos de infinitivo pedem pronome oblíquo na forma “o/a/os/as”, pois o pronome é sujeito do infinitivo: “Vi-a sair”, “Mandei-os entrar”, “Deixe-o falar”. Usar “lhe” nesses casos é impróprio.

Si e consigo

“Si” e “consigo” são pronomes reflexivos de 3ª pessoa: referem-se ao sujeito da oração. “Ele falou consigo mesmo.” “Ela só pensa em si.” Se o pronome não se refere ao sujeito, use “você”, “com você” ou “ele”: “Quero falar com você” (e não “consigo”), “A chefe confia em você”. “Consigo” no sentido de “com você” é erro na norma culta.

Nós, conosco

“Comigo”, “contigo”, “conosco” e “convosco” são formas de “com” + pronome. Quando há reforço por “mesmos, próprios, todos, ambos” ou numeral, usa-se “com nós”: “Ela falou com nós todos”, “com nós mesmos”.

Demonstrativos: este, esse e aquele

A regra básica relaciona o pronome à pessoa do discurso e a espaço e tempo:

Pronome Espaço Tempo No texto
este, esta, isto perto de quem fala presente anuncia o que vai ser dito
esse, essa, isso perto de quem ouve passado recente retoma o que já foi dito
aquele, aquela, aquilo longe de ambos passado distante refere-se a algo remoto

Exemplos: “Este livro que tenho na mão” (perto de quem fala); “Esse casaco aí que você veste” (perto de quem ouve); “Neste momento” (presente); “naquele tempo” (passado distante).

Referência no texto

Para retomar o que acabou de ser dito, as gramáticas e as bancas aceitam o esse (anafórico): “Foi publicado o edital. Esse documento traz as regras.” Para anunciar o que virá, usa-se o este (catafórico): “Digo isto: leia o edital.”

Em enumeração de dois termos já citados, “este” retoma o mais próximo (o último mencionado) e “aquele” o mais afastado (o primeiro): “Português e Direito foram estudados; este com mais questões, aquele com mais leitura” — “este” = Direito, “aquele” = Português.

Outros demonstrativos

  • O, a, os, as equivalem a “aquele(s), aquela(s), aquilo”: “O que importa é estudar” (aquilo que importa).
  • Mesmo, próprio, tal concordam com o termo a que se referem: “Elas mesmas corrigiram”, “Ele próprio assinou”. Como advérbio (no sentido de “até, realmente”), “mesmo” é invariável: “Estudei mesmo nos feriados”.
  • “O mesmo” como substituto de pronome pessoal (“Entregue o formulário e preencha o mesmo”) é apontado por gramáticos como impróprio em textos formais; prefira “preencha-o”.

Possessivos: seu, sua, dele, dela

Os possessivos (meu, teu, seu, nosso, vosso) indicam posse segundo a pessoa do discurso. A maior pegadinha é a ambiguidade de “seu/sua” quando há dois possíveis possuidores:

  • “O diretor disse ao servidor que seu pedido foi aprovado.” Pedido de quem? Ambíguo.
  • Corrigindo: “O diretor disse ao servidor que o pedido dele foi aprovado.” ou “o pedido do diretor…” ou reescrever a frase: “O diretor aprovou o pedido do servidor e avisou-o.”

Outras regras: o tratamento deve ser coerente. Quem usa “você” usa “seu” (ou “teu” apenas se usar “tu”): “Você pegou o seu livro” e “Tu pegaste o teu livro” são coerentes; “Tu pegaste o seu livro” mistura os tratamentos. Em textos oficiais, os pronomes de tratamento (Vossa Senhoria, Vossa Excelência) concordam com a 3ª pessoa e levam possessivo “Vossa” (ao falar com a pessoa) ou “Sua” (ao falar dela); veja pronomes de tratamento.

Exercício resolvido

Corrija e justifique:

  1. “Entre eu e ela há afinidade.” ⇒ “Entre mim e ela”. Depois de preposição, oblíquo tônico.
  2. “O chefe trouxe o documento para mim assinar.” ⇒ “para eu assinar”. Eu é o sujeito de “assinar”.
  3. “Ela confia muito em consigo.” ⇒ “Ela confia muito em si” (reflexivo; “em consigo” nem existe) ou, se o sentido é “em você”, “em você”.
  4. “Chamei-lhe para a sala.” ⇒ “Chamei-o”. Chamar é transitivo direto.
  5. “Vi-lhe sair.” ⇒ “Vi-o sair”. Verbo sensitivo + infinitivo.
  6. “A gerente avisou a diretora de que seu setor seria extinto.” Ambígua. Reescreva: “A gerente avisou a diretora de que o setor dela seria extinto” ou “o setor da gerente seria extinto”, conforme o sentido pretendido.

Erros comuns

  • Escrever “para mim fazer”: o sujeito do infinitivo é reto.
  • Usar “lhe” como objeto direto (“Vi-lhe”) ou “o” como objeto indireto (“Obedeci-o”).
  • Empregar “consigo” para “com você”.
  • Trocar este e esse sem observar a referência (anunciar com “esse”, retomar com “este”).
  • Deixar “seu” ambíguo quando há dois personagens na frase.

Conferência e orientação

O emprego dos pronomes é matéria de gramática normativa, sem texto legal que o regule. O texto reúne as regras de maior consenso nas gramáticas tradicionais; pontos como a lista de palavras que pedem o pronome reto e o uso de “o mesmo” são tratados de modos distintos conforme o autor, e nessas hipóteses o gabarito oficial da banca prevalece. O que apresentamos é orientação prática de estudo.

Próximos passos

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