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Redação oficial não é um estilo “mais difícil” do que o texto comum: é um texto com finalidade definida, que é comunicar com objetividade e máxima clareza. Segundo o Manual de Redação da Presidência da República, essa finalidade impõe parâmetros ao uso da língua, diferentes dos da literatura, do jornalismo e da carta particular. O Manual lista sete atributos, e as bancas cobram tanto o nome de cada um quanto a capacidade de reconhecê-lo (ou a falta dele) num trecho concreto.
Os sete atributos e de onde vêm
O Manual enumera: clareza e precisão; objetividade; concisão; coesão e coerência; impessoalidade; formalidade e padronização; uso da norma padrão. Ele explica que esses atributos decorrem, fundamentalmente, do art. 37 da CF/88, em especial dos princípios da publicidade, da impessoalidade e da eficiência. A ideia é simples: se o Estado age em nome do interesse público, o texto que ele produz precisa ser entendido pelo cidadão e não pode carregar a marca pessoal de quem o redigiu.
| Atributo | Em uma frase | Defeito típico |
|---|---|---|
| Clareza | O leitor entende de imediato | Frase longa, intercalações excessivas, sigla sem explicação |
| Precisão | A palavra escolhida não dá duplo sentido | Sinônimo só para “variar”, termo vago |
| Objetividade | Ir direto ao assunto, sem voltas | Introdução que não informa nada |
| Concisão | Máximo de informação com o mínimo de palavras | Adjetivos e advérbios inúteis, repetição |
| Coesão e coerência | As partes se ligam e fazem sentido juntas | Pronome sem referente, conectivo trocado |
| Impessoalidade | Texto em nome do serviço público | Opinião pessoal, tom de carta a um amigo |
| Formalidade e padronização | Forma e tratamento uniformes | Gíria, digitação descuidada, fecho inadequado |
Clareza e precisão na prática
Para obter clareza, o Manual sugere palavras simples em sentido comum (salvo assunto técnico, quando se usa a nomenclatura da área), frases curtas e bem estruturadas, orações na ordem direta, uniformidade do tempo verbal, ausência de regionalismos e neologismos, pontuação adequada, sigla explicada na primeira referência e termos em outro idioma só quando indispensáveis (em itálico).
A precisão complementa a clareza. O Manual pede que a mesma ideia seja expressa com as mesmas palavras, evitando sinonímia com propósito meramente estilístico, e que se escolha palavra que não confira duplo sentido. Isso explica por que, em ofícios e leis, você vê “o servidor” repetido em vez de “o funcionário”, “o profissional”, “o agente”: variar o termo faz o leitor suspeitar de que se trata de outra pessoa.
O Manual destaca ainda a releitura. Trechos obscuros em textos oficiais vêm, segundo ele, principalmente da falta de revisão, e a pressa compromete a clareza.
Objetividade e concisão não são sinônimos
Objetividade é uma escolha de conteúdo: saber qual é a ideia principal e quais são as secundárias, e dispensar as que não acrescentam informação. O Manual avisa que objetividade não suprime a delicadeza de expressão nem torna o texto rude.
Concisão é uma escolha de forma: dizer o mesmo com menos palavras. O Manual faz uma ressalva importante, que costuma ser cobrada: concisão não é economia de pensamento. Não se eliminam passagens substanciais só para encurtar o texto; eliminam-se palavras inúteis, redundâncias e passagens que nada acrescentam.
Exemplo resolvido: reescrita de um trecho prolixo
Considere o trecho abaixo, inventado para este guia.
“Conforme já foi amplamente e exaustivamente discutido por todos os membros da equipe na reunião de ontem, é absolutamente impossível, infelizmente, concluir o relatório antes do final da próxima semana, o que é muito lamentável.”
Passo a passo da correção:
- Localize a informação central: o relatório não será concluído antes do final da próxima semana.
- Corte o que não informa: “amplamente e exaustivamente”, “por todos os membros”, “absolutamente”, “o que é muito lamentável”.
- Retire a marca pessoal: “infelizmente” e “lamentável” são impressões de quem escreve (impessoalidade).
- Preserve o dado de contexto que tem função: a decisão foi tomada em reunião.
Versão final: “Conforme discutido na reunião anterior, o relatório não poderá ser concluído antes do final da próxima semana.”
Observe que o texto encolheu, mas nenhuma informação relevante se perdeu. Se você cortasse também a referência à reunião, estaria “economizando pensamento”, e não sendo conciso.
Coesão, coerência e impessoalidade
O Manual cita quatro mecanismos de coesão: referência (retomar ou antecipar um termo), substituição (colocar um item lexical no lugar de outro ou de uma oração), elipse (omissão de termo recuperável pelo contexto) e uso de conjunção. Um exemplo de elipse do próprio Manual: “O decreto regulamenta os casos gerais; a portaria, os particulares”, em que o verbo “regulamenta” fica oculto na segunda oração. Para aprofundar o assunto fora da redação oficial, veja coesão e coerência.
Quanto à impessoalidade, o Manual a apresenta em dois sentidos: a administração não privilegia nem prejudica ninguém e atua pelo interesse público; e a pessoalidade do agente se apaga, pois o ato é resultado da vontade estatal. Na escrita, isso significa ausência de impressões individuais de quem comunica, destinatário tratado de forma impessoal e assunto restrito ao interesse público.
Formalidade, padronização e norma padrão
A comunicação administrativa deve ser formal, inclusive por meio eletrônico (e-mail, documento gerado em sistema). A formalidade envolve o tratamento adequado à autoridade e também a civilidade do enfoque. O Manual afirma que não existe propriamente um “padrão oficial de linguagem”: o que há é o uso da norma padrão, sem o jargão burocrático, que tem compreensão limitada e deve ser evitado. E registra que usar a norma culta não é falar de modo rebuscado nem usar figuras de linguagem do estilo literário.
Erros comuns na prova
- Confundir objetividade com concisão. A primeira diz respeito ao conteúdo, a segunda ao modo de dizê-lo.
- Achar que “formal” é sinônimo de “rebuscado”. O Manual diz o contrário.
- Atribuir a impessoalidade só ao uso da terceira pessoa. Ela é mais ampla: envolve ausência de opinião, de favoritismo e de tom pessoal.
- Trocar o termo técnico por sinônimo “mais bonito”, ferindo a precisão.
- Esquecer que a sigla deve ser explicada na primeira menção.
Questão para treinar
Julgue: “Em um ofício, o redator pode empregar o adjetivo ‘lamentável’ para demonstrar seu desapontamento com a decisão, pois isso confere clareza ao texto.”
Resolução: errado. A manifestação de desapontamento é impressão pessoal e fere a impessoalidade; além disso, adjetivação dispensável contraria a concisão. Clareza se obtém com informação precisa, e não com carga afetiva.
Próximos passos
- Veja a aplicação dos atributos no padrão ofício e sua formatação.
- Treine a correção de frases em erros comuns em redação de concurso.
- Escolha o fecho e o tratamento certos em pronomes de tratamento e fechos.
Fontes e atualização
Os atributos e exemplos citados foram conferidos no texto da 3ª edição do Manual. Edital e banca podem adotar manual próprio ou outra edição; confira o que o seu edital indica.