Guia de profissões do serviço público

Almoxarife: recebimento, guarda e registro de bens

A profissão em resumo

O que faz
Recebe, confere, guarda, entrega e controla o estoque de materiais do órgão, com base na Lei 14.133/21 (arts. 40 e 140) e na Lei 4.320/64 (arts. 94 a 96 e 106).
Formação exigida
Não há lei que regulamente a profissão de almoxarife; cargo, requisitos e atribuições vêm da lei do ente, do plano de cargos e do edital.
Como se ingressa
Concurso público para o cargo previsto no plano de cargos do ente, conforme o edital.
Idade mínima
Nenhuma norma citada neste guia fixa idade mínima para o cargo. Para cargo público federal civil, a Lei 8.112/90 exige 18 anos (art. 5º); em outros entes, vale a lei local e o edital.
Idade máxima
Nenhuma norma citada neste guia prevê idade máxima. Em concurso civil, limite de idade só se admite se a lei do cargo o previr e a natureza das atribuições o justificar (Súmula 683 do STF); confira o edital.
Atribuições
Recebimento e conferência do material (Lei 14.133/21, art. 140), armazenagem sem deterioração (art. 40, IV), atendimento de requisições, controle de saldos e inventário, com avaliação do estoque pelo preço médio ponderado (Lei 4.320/64, art. 106, III).
Com quem lida
Fornecedores na entrega, responsáveis pelo recebimento provisório e definitivo do contrato, setores requisitantes e a contabilidade, que mantém os registros dos bens (Lei 14.133/21, art. 140; Lei 4.320/64, arts. 94 a 96).
Onde atua
Almoxarifados de órgãos e entidades públicas; os procedimentos seguem norma interna de cada órgão.

Idade e outros requisitos mudam por carreira e por edital. Entenda a regra geral em limite de idade em concurso e veja o mapa de carreiras com idade fixada em lei. O edital vigente prevalece.

O almoxarife é o profissional que cuida de materiais: recebe, confere, guarda, entrega e controla o estoque de um órgão. Não existe uma lei que regulamente a profissão de almoxarife, como existe para o contador ou o enfermeiro. O cargo e suas atribuições vêm da lei do ente, do plano de cargos e do edital. Mas a rotina do almoxarifado se apoia em normas gerais que costumam cair em prova e que organizam o trabalho. Este guia lê as que importam e mostra um exemplo prático.

Onde a lei toca o almoxarifado

Três momentos do ciclo do material têm base em lei federal.

Antes de comprar: o planejamento considera a armazenagem

O art. 40 da Lei 14.133/21 trata do planejamento de compras. Ele deve considerar a expectativa de consumo anual e observar, entre outros pontos:

  • condições de aquisição e pagamento semelhantes às do setor privado (inciso I);
  • processamento por sistema de registro de preços, quando pertinente (inciso II);
  • determinação das unidades e quantidades em função do consumo e da utilização prováveis, com técnicas quantitativas sempre que possível (inciso III);
  • condições de guarda e armazenamento que não permitam a deterioração do material (inciso IV);
  • padronização, parcelamento e responsabilidade fiscal (inciso V).

O inciso IV é o do almoxarife: a compra precisa levar em conta onde e como o material será guardado. Comprar além da capacidade de armazenagem ou de validade é erro de planejamento.

Na chegada: recebimento provisório e definitivo

O art. 140 da mesma lei regula o recebimento do objeto do contrato. Para compras (inciso II):

Tipo Quem Como
Provisório o responsável pelo acompanhamento e fiscalização de forma sumária, com verificação posterior da conformidade do material com as exigências contratuais
Definitivo servidor ou comissão designada pela autoridade competente mediante termo detalhado que comprove o atendimento das exigências contratuais

O § 1º diz que o objeto do contrato poderá ser rejeitado, no todo ou em parte, quando estiver em desacordo com o contrato. Em prova, a pegadinha é a ordem: o recebimento provisório vem primeiro e é sumário; o definitivo vem depois, com termo detalhado. Quem recebe o material no balcão do almoxarifado nem sempre é quem dá o recebimento definitivo; isso depende de como o órgão designou os responsáveis. O guia de fiscal e gestor de contratos trata da função de quem acompanha o contrato.

Depois: registros dos bens

A Lei 4.320/64 trata da contabilidade patrimonial no capítulo sobre contabilidade patrimonial e industrial:

  • Art. 94: haverá registros analíticos de todos os bens de caráter permanente, com indicação dos elementos necessários para sua perfeita caracterização e dos agentes responsáveis pela sua guarda e administração.
  • Art. 95: a contabilidade manterá registros sintéticos dos bens móveis e imóveis.
  • Art. 96: o levantamento geral dos bens móveis e imóveis terá por base o inventário analítico de cada unidade administrativa e os elementos da escrituração sintética na contabilidade.
  • Art. 106, III: os bens de almoxarifado são avaliados pelo preço médio ponderado das compras.

O art. 94 fala em bens de caráter permanente; o material de consumo do almoxarifado tem tratamento próprio, e a avaliação por preço médio ponderado do art. 106, III, é o que se aplica a ele. Veja também contabilidade pública: patrimônio e demonstrações.

Exemplo resolvido: preço médio ponderado

O almoxarifado recebe duas entradas do mesmo material:

  • 1ª entrada: 100 unidades a 5 por unidade (total 500);
  • 2ª entrada: 50 unidades a 8 por unidade (total 400).

O preço médio ponderado é o valor total dividido pela quantidade total: (500 + 400) / (100 + 50) = 900 / 150 = 6 por unidade.

Se saírem 60 unidades para um setor, o custo da saída é 60 x 6 = 360, e o saldo é 90 unidades x 6 = 540. A média simples dos preços (5 e 8) daria 6,5, resultado errado, porque ignora as quantidades. O erro mais frequente em provas é calcular a média simples.

Rotina do almoxarife, passo a passo

  1. Receber: conferir a nota fiscal com o pedido, a quantidade e as condições do material, e registrar o recebimento nos termos definidos pelo órgão.
  2. Conferir e registrar divergências: o objeto pode ser rejeitado, no todo ou em parte, se estiver em desacordo com o contrato (art. 140, § 1º).
  3. Armazenar: respeitar condições de guarda que evitem a deterioração do material (art. 40, IV).
  4. Atender requisições: entregar conforme requisição formal e baixar o saldo.
  5. Controlar: manter saldos, prazos de validade e inventário. Para bens permanentes, registros analíticos com identificação do agente responsável pela guarda (Lei 4.320, art. 94).
  6. Inventariar: o inventário analítico sustenta o levantamento geral (Lei 4.320, art. 96).

Os termos usados na rotina (requisição de material, termo de recebimento, ficha de estoque) variam entre os órgãos. O que a lei fixa é o princípio; o procedimento está em norma interna.

Como cai em prova

As bancas combinam legislação e cálculo: perguntam o que é recebimento provisório e definitivo, quem designa o responsável pelo definitivo, o que deve ser considerado no planejamento de compras e como se avalia estoque. Para a parte de gestão de materiais (curva ABC, lote econômico, ponto de pedido), veja materiais: curva ABC, lote econômico e ponto de pedido.

Erros comuns

  • Imaginar que há lei específica que regule o almoxarife. O cargo depende da lei do ente e do edital.
  • Calcular a média simples em vez da ponderada.
  • Confundir o recebimento provisório (sumário) com o definitivo (termo detalhado).
  • Aplicar o art. 94 da Lei 4.320 ao material de consumo: o artigo trata de bens permanentes.

Próximos passos

  1. Treine os cálculos em materiais: curva ABC, lote econômico e ponto de pedido.
  2. Veja como se planeja a compra em planejamento da contratação na Lei 14.133.
  3. Leia sobre a função do fiscal e do gestor de contratos.

Fontes e atualização

Cada órgão disciplina o almoxarifado em norma interna, e o edital descreve o cargo. Confira a legislação vigente e o edital em vigor.

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