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Administrar é decidir o tempo todo. Por isso os editais de administração listam o processo decisório: tipos de decisão, modelo de decisão racional, técnicas de apoio e heurísticas. O assunto reúne teoria (modelos e vieses) e cálculo (valor esperado, critérios sob incerteza), e a combinação rende questões de ambos os tipos.
Tipos de decisão
Quanto à rotina (Herbert Simon):
- Decisões programadas: repetitivas, com procedimento estabelecido (aprovar uma licença-padrão, repor estoque no ponto de pedido).
- Decisões não programadas: novas, complexas ou estratégicas, sem procedimento pronto (escolher uma nova linha de serviço).
Quanto ao grau de conhecimento sobre os resultados:
- Certeza: o decisor conhece o resultado de cada alternativa.
- Risco: conhece os resultados possíveis e suas probabilidades.
- Incerteza: conhece os resultados possíveis, mas não as probabilidades.
Quanto ao nível: estratégicas (cúpula), táticas (gerência) e operacionais.
O modelo racional
Descreve a decisão ideal em etapas:
- Identificar o problema.
- Definir os critérios de decisão.
- Atribuir pesos aos critérios.
- Gerar alternativas.
- Avaliar cada alternativa segundo os critérios.
- Escolher a melhor (que maximiza o valor).
Pressupostos: problema claro, informação completa, todas as alternativas conhecidas, critérios estáveis e decisor que busca maximizar. Na prática, esses pressupostos raramente valem.
Racionalidade limitada
Para Simon, o decisor tem racionalidade limitada: pouco tempo, informação incompleta, capacidade cognitiva restrita. Em vez de buscar a melhor solução, ele busca uma satisfatória, a primeira que atende aos critérios mínimos (satisficing). Pegadinha: não confunda “satisfatória” com “ótima”.
Outros modelos
- Incremental (Lindblom, “ciência do remendar”): decisões por pequenos ajustes sucessivos sobre a situação atual, comuns no setor público.
- Lata de lixo (garbage can): decisões resultam do encontro casual entre problemas, soluções, participantes e oportunidades de escolha, em organizações com metas pouco claras.
- Político: decisões moldadas por negociação e coalizões.
Heurísticas e vieses
Heurísticas são atalhos mentais que simplificam decisões. Ajudam a decidir rápido, mas podem gerar vieses (erros sistemáticos). As clássicas (Tversky e Kahneman):
| Heurística | Como funciona | Viés possível |
|---|---|---|
| Disponibilidade | julga a frequência pelo que vem facilmente à memória | superestimar eventos recentes ou marcantes |
| Representatividade | julga pela semelhança com um estereótipo | ignorar a probabilidade real do grupo |
| Ancoragem e ajuste | parte de um valor inicial e ajusta pouco | o primeiro número influencia demais |
Outros vieses cobrados: excesso de confiança, aversão à perda (a perda dói mais que o ganho equivalente), escalada de comprometimento (insistir em um curso de ação que já fracassou por causa do investimento feito), viés de confirmação (buscar informações que confirmam a crença).
Técnicas de decisão em grupo
- Brainstorming: geração de ideias sem críticas na etapa inicial.
- Grupo nominal: os membros escrevem ideias individualmente, depois discutem e votam, reduzindo a influência dos mais falantes.
- Delphi: rodadas de questionários anônimos com especialistas, com devolutiva dos resultados, até convergir; não exige reunião presencial.
- Pensamento de grupo (groupthink): tendência de buscar consenso e suprimir divergências, prejudicando a qualidade da decisão.
Cálculo 1: decisão sob risco (valor esperado)
Valor esperado (VE) = soma de (probabilidade x resultado).
Exemplo: o projeto A tem 60% de chance de resultado +100 e 40% de chance de resultado -20; o projeto B rende +45 com certeza.
- VE(A) = 0,6 x 100 + 0,4 x (-20) = 60 - 8 = 52.
- VE(B) = 45.
Pelo valor esperado, A é preferível. Um decisor avesso ao risco poderia preferir B, porque A tem chance de perda; o critério do VE ignora a atitude diante do risco.
Cálculo 2: árvore de decisão
Uma empresa decide se lança um produto. O lançamento custa 40. Há 50% de chance de demanda alta (receita de 120) e 50% de demanda baixa (receita de 20). Não lançar rende 0.
Árvore:
- Lançar: VE = 0,5 x 120 + 0,5 x 20 - 40 = 60 + 10 - 40 = 30.
- Não lançar: 0.
Decisão: lançar, pois 30 > 0.
Valor esperado da informação perfeita (VEIP). Se fosse possível saber a demanda antes de decidir:
- Demanda alta (50%): lança, resultado 120 - 40 = 80.
- Demanda baixa (50%): não lança, resultado 0 (em vez de 20 - 40 = -20).
- VE com informação perfeita = 0,5 x 80 + 0,5 x 0 = 40.
VEIP = 40 - 30 = 10. Ou seja, não vale pagar mais de 10 por uma pesquisa perfeita. Esse limite é um bom teste de raciocínio em questões.
Cálculo 3: decisão sob incerteza
Matriz de resultados (linhas: alternativas; colunas: cenários favorável, neutro e desfavorável), sem probabilidades:
| Favorável | Neutro | Desfavorável | |
|---|---|---|---|
| A1 | 80 | 40 | -20 |
| A2 | 50 | 50 | 10 |
| A3 | 30 | 30 | 30 |
Critérios clássicos:
- Maximax (otimista): escolhe o maior dos melhores resultados. Melhores: 80, 50 e 30. Escolha: A1.
- Maximin (Wald, pessimista): escolhe o melhor dos piores. Piores: -20, 10 e 30. Escolha: A3.
- Laplace (equiprobabilidade): média simples. A1 = 100/3, cerca de 33,3; A2 = 110/3, cerca de 36,7; A3 = 30. Escolha: A2.
- Hurwicz (coeficiente de otimismo α): α x melhor + (1 - α) x pior. Com α = 0,6: A1 = 0,6 x 80 + 0,4 x (-20) = 40; A2 = 0,6 x 50 + 0,4 x 10 = 34; A3 = 30. Escolha: A1.
- Savage (minimax do arrependimento): monta a matriz de arrependimento (o melhor de cada cenário menos o resultado obtido). Melhores por cenário: 80, 50 e 30.
- Arrependimentos de A1: 0, 10 e 50 (máximo 50).
- Arrependimentos de A2: 30, 0 e 20 (máximo 30).
- Arrependimentos de A3: 50, 20 e 0 (máximo 50).
- Escolhe o menor dos máximos: A2.
Moral: o critério muda a decisão. Em prova, o enunciado diz qual aplicar; basta executar com ordem.
Erros comuns
- Confundir risco (probabilidades conhecidas) com incerteza (desconhecidas).
- Chamar a decisão “satisfatória” de decisão ótima.
- Esquecer de descontar o custo de lançamento no VE.
- Trocar maximin e maximax.
- Atribuir o modelo incremental a Simon, ou a racionalidade limitada a Lindblom.
- Dizer que heurística é sempre erro: é um atalho útil que pode gerar viés.
Próximos passos
- Conecte com o ciclo de planejamento em planejamento estratégico: SWOT, cinco forças e BSC.
- Veja o contexto do gestor em funções da administração.
- Aplique a probabilidade em probabilidade básica.
Fontes e atualização
- Edital do TRF 1 (FGV): o conteúdo de Noções de Administração lista o processo decisório: tipos de decisões, modelo de decisão racional, técnicas de apoio à decisão e heurísticas.
- Edital do TRT 10 (Cebraspe): o conteúdo de Gestão Estratégica lista o processo de planejamento, e o de governança lista processos de análise e tomada de decisão.
Os cálculos foram conferidos. Os modelos seguem a literatura clássica; as bancas podem adotar outros autores. Confira o edital.