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Infinitivo flexionado ou não: quando flexionar, segundo o Manual

“Os candidatos precisam estudar” ou “precisam estudarem”? “Para eles saírem” ou “para eles sair”? “O chefe mandou os servidores entrar” ou “entrarem”? A flexão do infinitivo é uma peculiaridade da língua portuguesa que o Manual de Redação da Presidência da República descreve como assunto “controverso para os gramáticos”, mas que resume em um critério prático: a flexão só cabe quando o infinitivo tem sujeito próprio, em geral distinto do da oração principal. Este guia reúne o critério, os casos de dupla possibilidade e os de impossibilidade, com exercícios.

O critério central

Segundo o Manual, o infinitivo, apesar de nominalizado, pode flexionar-se concordando com seu sujeito. Simplificando, a flexão só cabe quando ele tem sujeito próprio, em geral distinto do sujeito da oração principal. Os exemplos do Manual:

  • “Chegou ao conhecimento desta Repartição estarem a salvo todos os atingidos pelas enchentes.” (sujeito do infinitivo: todos os atingidos)
  • “A imprensa estrangeira noticia sermos nós os responsáveis pela preservação da Amazônia.” (sujeito do infinitivo: nós)
  • “O Governo afirma não existirem tais doenças no País.” (sujeito da principal: o Governo; do infinitivo: tais doenças)
  • “Ouvimos baterem à porta.” (sujeito do infinitivo: indefinido plural, como em “Batem à porta”)

Para usar o critério, faça duas perguntas: quem pratica a ação do verbo no infinitivo? É o mesmo sujeito do verbo anterior? Se for outro, e se for plural ou de outra pessoa, flexione.

Quando o infinitivo não se flexiona

O Manual afirma que o infinitivo é não flexionável nas combinações com outro verbo de um só e mesmo sujeito: a esse outro verbo é que cabe a concordância. Ou seja, nas locuções verbais, só o auxiliar varia.

  • “As assessoras podem (ou devem) ter dúvidas quanto à medida.”
  • “Os sorteados não conseguem conter sua alegria.”
  • “Queremos (ou precisamos) destacar alguns pormenores.”

Em uma frase como “Os candidatos precisam estudar”, o sujeito de “precisam” e de “estudar” é o mesmo (“os candidatos”), logo o infinitivo fica no singular. “Os candidatos precisam estudarem” é erro clássico.

Quando as duas formas são possíveis

Com os verbos factitivos (fazer, deixar, mandar) e sensitivos (sentir, ouvir, ver), o infinitivo pode concordar com seu sujeito próprio, ou deixar de fazê-lo, porque o sujeito lógico passa a ser objeto direto sintático do primeiro verbo. Exemplos do Manual:

  • “O Presidente fez (ou deixou, mandou) os assessores entrarem (ou entrar).”
  • “Sentimos (ou vimos, ouvimos) os colegas vacilarem (ou vacilar) nos debates.”

Quando o objeto é um pronome oblíquo

O Manual ressalva que o sujeito semântico do infinitivo, quando aparece na forma pronominal acusativa (o, a, -lo, -no e flexões), só pode ser objeto do outro verbo; então o infinitivo não se flexiona:

  • “O Presidente fê-los entrar” (e não “entrarem”).
  • “Sentimo-los vacilar” (e não “vacilarem”).

Em resumo: com substantivo, tanto faz; com o pronome o/a/os/as, não se flexiona.

Infinitivo depois de preposição e de locuções

Fora do que o Manual detalha, as gramáticas normativas registram um uso consolidado: depois de preposição ou locução prepositiva, quando o infinitivo tem sujeito próprio, diferente do da principal, ele se flexiona se esse sujeito for plural. Exemplos: “Antes de chegarem as provas, os fiscais conferiram os malotes” e “É importante os candidatos chegarem cedo”. Quando o sujeito é o mesmo da oração principal, a flexão é facultativa e costuma ser preferida quando ajuda a clareza (“Ao saírem da sala, os candidatos entregaram o caderno” ou “Ao sair da sala, os candidatos entregaram o caderno”).

Note que a regra se articula com a do sujeito preposicionado: “antes de os candidatos saírem” tem sujeito próprio expresso e infinitivo flexionado. Veja sujeito preposicionado e frases fragmentadas.

Roteiro de decisão

  1. Há dois verbos seguidos formando uma só ação (locução verbal, com verbos como poder, dever, querer, precisar, conseguir)? O infinitivo não flexiona; o auxiliar varia.
  2. O infinitivo tem sujeito próprio, diferente do da oração principal? Flexione se esse sujeito estiver no plural (ou de outra pessoa).
  3. Com fazer, deixar, mandar, sentir, ouvir, ver: flexionar é facultativo, salvo se o objeto for pronome oblíquo (o, a, os, as): então não flexione.
  4. Se o sujeito do infinitivo for o pronome “se” ou indeterminado (“ouvimos baterem”), siga o critério da pergunta “quem pratica?”.

Exercícios resolvidos

1. Corrija se necessário: “Os servidores devem comparecerem ao setor.” Resolução: “Os servidores devem comparecer ao setor.” Locução verbal com o mesmo sujeito: só o auxiliar varia.

2. Corrija se necessário: “O diretor mandou os servidores sair.” Resolução: certa (e também seria correta “saírem”): com verbo factitivo, as duas formas são aceitas.

3. Corrija: “O diretor mandou-os saírem.” Resolução: “O diretor mandou-os sair.” Quando o sujeito do infinitivo é pronome oblíquo, não se flexiona.

4. Julgue: “Na frase ‘O Governo afirma não existirem tais doenças’, o infinitivo concorda com ‘tais doenças’.” Resolução: certo. O sujeito do infinitivo é “tais doenças”, distinto do sujeito de “afirma”.

5. Corrija: “Os candidatos precisam estudarem mais.” Resolução: “Os candidatos precisam estudar mais.”

6. Corrija: “Para os candidatos aprovar, é preciso estudar.” Resolução: “Para os candidatos serem aprovados…” (ou “Para aprovarem…”); o infinitivo com sujeito próprio, distinto do da oração principal, se flexiona.

7. Julgue: “Em ‘Ouvimos baterem à porta’, a flexão se explica porque o sujeito do infinitivo é indefinido plural.” Resolução: certo, conforme o Manual.

Erros comuns

  • Flexionar o infinitivo de uma locução verbal: “devem comparecerem”.
  • Esquecer a flexão quando o sujeito é distinto e plural: “para eles sair”.
  • Flexionar depois de pronome oblíquo: “mandou-os saírem”.
  • Achar que a flexão é sempre obrigatória ou sempre facultativa: depende do caso.

Próximos passos

Fontes e atualização

A regra e os exemplos de flexão do infinitivo foram conferidos no item de concordância verbal da 3ª edição do Manual, na data de publicação deste guia. O uso depois de preposição segue a gramática normativa tradicional; o Manual reconhece que o tema é controverso, e as bancas costumam trazer exemplos nítidos.

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