Contabilidade pública e orçamento

Depreciação: método linear, soma dos dígitos e unidades

Um veículo, um computador ou uma máquina perdem valor com o uso, a ação do tempo e a obsolescência. Contabilmente, essa perda é distribuída ao longo da vida útil do bem por meio da depreciação. O tema aparece em concursos de contabilidade geral e de contabilidade pública, quase sempre com um cálculo simples. Dominar três métodos resolve a grande maioria das questões.

Depreciação, amortização e exaustão

A lei societária distingue três nomes, conforme a natureza do ativo:

  • Depreciação: perda de valor de direitos que têm por objeto bens físicos sujeitos a desgaste ou perda de utilidade por uso, ação da natureza ou obsolescência.
  • Amortização: perda do valor do capital aplicado na aquisição de direitos de propriedade industrial ou comercial e outros com existência ou exercício de duração limitada, ou de bens de utilização por prazo legal ou contratualmente limitado (por exemplo, uma licença por prazo determinado).
  • Exaustão: perda de valor, decorrente da exploração, de direitos cujo objeto sejam recursos minerais ou florestais, ou bens aplicados nessa exploração.

No balanço, o imobilizado é avaliado pelo custo de aquisição, deduzido do saldo da respectiva conta de depreciação, amortização ou exaustão.

Conceitos-chave

  • Custo de aquisição (valor depreciável bruto): o custo do bem, incluindo gastos necessários para colocá-lo em condições de uso.
  • Valor residual: quanto se espera recuperar na venda ao fim da vida útil.
  • Valor depreciável = custo - valor residual.
  • Vida útil: período em que se espera usar o bem, estimado pela entidade (e revisado periodicamente).
  • Depreciação acumulada: soma das depreciações já lançadas. É conta redutora do ativo (saldo credor).
  • Valor contábil (valor líquido) = custo - depreciação acumulada.

Terrenos, em regra, não se depreciam, porque não têm vida útil limitada. A depreciação começa quando o bem está disponível para uso, e não na compra, se os dois momentos forem diferentes.

Lançamento mensal: D Despesa de Depreciação / C Depreciação Acumulada. Note que a depreciação não é saída de caixa: é a apropriação do custo ao resultado.

Dados do exemplo

Veículo comprado por 60.000 (u.m.), valor residual 6.000, vida útil de 5 anos, capacidade estimada de 300.000 km durante a vida útil. Valor depreciável: 60.000 - 6.000 = 54.000.

Método linear (quotas constantes)

Distribui o valor depreciável igualmente pelos períodos:

Depreciação anual = 54.000 / 5 = 10.800. Mensal: 10.800 / 12 = 900. Taxa anual: 1/5 = 20% ao ano do valor depreciável.

Final do ano Depreciação do ano Depreciação acumulada Valor contábil
1 10.800 10.800 49.200
2 10.800 21.600 38.400
3 10.800 32.400 27.600
4 10.800 43.200 16.800
5 10.800 54.000 6.000

Ao final, o valor contábil iguala o valor residual (6.000).

Período incompleto. Se o veículo entrou em uso no início de julho, no primeiro ano a depreciação cobre 6 meses: 6 x 900 = 5.400. Em questões de prova, atenção à data de início de uso e à contagem de meses.

Método da soma dos dígitos dos anos

É um método acelerado: as quotas são maiores nos primeiros anos. Soma-se os dígitos da vida útil: 5 + 4 + 3 + 2 + 1 = 15. Cada ano recebe uma fração do valor depreciável, em ordem decrescente de dígitos:

Ano Fração Depreciação do ano (54.000 x fração)
1 5/15 18.000
2 4/15 14.400
3 3/15 10.800
4 2/15 7.200
5 1/15 3.600

Soma: 18.000 + 14.400 + 10.800 + 7.200 + 3.600 = 54.000. Confere.

Valor contábil ao fim do ano 2: 60.000 - 18.000 - 14.400 = 27.600. No método linear, estava em 38.400: o acelerado reduz o valor contábil mais depressa. As quotas formam uma progressão aritmética decrescente, de razão -3.600 (54.000 / 15).

Como regra geral, o que cai em prova: se o enunciado pede a depreciação do terceiro ano, use a fração 3/15, e não 5/15.

Método das unidades produzidas (ou horas de uso)

A depreciação acompanha o uso efetivo do bem, em vez do tempo:

Depreciação por km = valor depreciável / capacidade total = 54.000 / 300.000 = 0,18 por km.

Se o veículo rodou 40.000 km no ano: 40.000 x 0,18 = 7.200. Se rodou 90.000 km: 90.000 x 0,18 = 16.200.

Esse método é adequado quando o desgaste depende do uso (máquinas, veículos, equipamentos de produção) e não do tempo.

Comparação

Aspecto Linear Soma dos dígitos Unidades produzidas
Base tempo tempo uso
Quota constante decrescente varia com o uso
Quando é adequado desgaste uniforme maior desgaste no início desgaste proporcional ao uso
Depreciação do ano 1 (exemplo) 10.800 18.000 depende dos km rodados

Em todos os métodos, a soma das depreciações ao longo da vida útil é igual ao valor depreciável (54.000, no exemplo). Só o ritmo muda.

Teste de recuperabilidade e revisão da vida útil

A lei societária prevê que a companhia analise periodicamente a recuperação dos valores registrados no imobilizado e no intangível, a fim de que sejam registradas perdas de valor quando o ativo não puder produzir resultados suficientes para recuperar seu valor, ou revisados e ajustados os critérios usados para determinar a vida útil e a depreciação. Se a vida útil restante mudar, a nova estimativa vale dali em diante (prospectivamente): não se refazem as depreciações passadas.

Exemplo: no final do ano 2 (linear), o valor contábil é 38.400 e o residual é 6.000. Se a vida útil restante for reestimada em 4 anos (em vez de 3), a nova quota anual será (38.400 - 6.000) / 4 = 8.100.

Erros comuns

  • Depreciar sobre o custo inteiro, esquecendo de descontar o valor residual.
  • Tratar a depreciação como saída de caixa.
  • Depreciar terreno.
  • Contar o ano inteiro quando o bem entrou em uso no meio do ano.
  • Usar a fração 5/15 sempre no método da soma dos dígitos: a fração diminui ano a ano.
  • Esquecer que a depreciação acumulada reduz o ativo e não é passivo.

Próximos passos

Fontes e atualização

  • Lei 6.404/76, texto consolidado: art. 183, incisos V e VII e parágrafos 2º e 3º (avaliação do imobilizado e do intangível; depreciação, amortização e exaustão; análise periódica de recuperação), conferido no texto consolidado.
  • Edital do TRT 10 (Cebraspe): o conteúdo de Contabilidade Pública da especialidade Contabilidade lista depreciação, amortização e exaustão, reavaliação e redução ao valor recuperável.

Os cálculos foram conferidos. Nas questões de contabilidade pública, as normas específicas do setor também orientam o método: confira o edital e a norma vigente.

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