Português

Crase: quando usar, quando não usar e exemplos resolvidos

A crase é o acento grave (`) que marca a fusão da preposição “a” com o artigo definido feminino “a(s)” ou com o “a” inicial de pronomes como “aquele”, “aquela” e “aquilo”. Em resumo: só há crase quando existem dois “as” juntos, um exigido por quem rege e outro que acompanha a palavra seguinte.

A ideia central: dois “as” que se fundem

Veja a frase “Entreguei o relatório à diretora”. O verbo “entregar” pede a preposição “a” (entregar algo a alguém). O substantivo “diretora” aceita o artigo “a” (a diretora). Os dois se juntam e viram “à”. Se faltar qualquer um dos dois, não existe crase.

Isso explica por que a crase quase nunca aparece diante de palavras masculinas: “Entreguei o relatório ao diretor”. Não há artigo feminino para se fundir com a preposição.

Passo a passo para decidir em uma prova

  1. Identifique a palavra que vem depois do possível acento. Ela é feminina? Se for masculina, verbo ou outra classe que não aceita artigo feminino, descarte a crase.
  2. Verifique se o termo anterior exige a preposição “a”. Pergunte-se: “Quem chega, chega a algum lugar”; “quem refere, refere-se a algo”.
  3. Faça o teste de troca pelo masculino. Se, ao trocar a palavra feminina por uma masculina equivalente, a frase pedir “ao”, então a feminina pede “à”. Exemplo: “Fui à farmácia” vira “Fui ao mercado”. Há crase.
  4. Faça o teste com o verbo “voltar”. Se a frase com “voltar” ficar “voltei da”, há crase na frase com “ir”. Exemplo: “Voltei da Bahia” leva a “Vou à Bahia”. Já “Voltei de Brasília” leva a “Vou a Brasília”, sem crase.

Casos em que a crase é proibida

  • Antes de palavras masculinas: “Andamos a pé”, “Fiz referência a um colega”.
  • Antes de verbos: “Ele começou a estudar”, “Estamos dispostos a colaborar”.
  • Antes de pronomes pessoais, de tratamento e demonstrativos que não admitem artigo: “Contei a ela”, “Escrevi a Vossa Excelência”, “Refiro-me a esta situação” (aqui o pronome “esta” não aceita artigo).
  • Antes de artigo indefinido: “Chegamos a uma conclusão”.
  • Entre palavras repetidas: “cara a cara”, “gota a gota”, “frente a frente”.
  • Antes de palavra no plural quando só o “a” da preposição aparece: “Falei a pessoas desconhecidas” (a palavra “pessoas” está sem artigo; se houvesse artigo, seria “às pessoas”).
  • Antes de nomes de cidades que não admitem artigo: “Vou a Brasília”, “Cheguei a Salvador”. Para saber se o nome aceita artigo, use o teste do “voltar”: “Voltei de Brasília” indica que não há crase. Já “Voltei da Bahia” indica “Vou à Bahia”.

Casos em que a crase é obrigatória

  • Locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas: “à noite”, “às vezes”, “à vista”, “às pressas”, “à direita”, “à esquerda”, “à medida que”, “à procura de”.
  • Indicação de horas: “A reunião começa às nove horas”, “Cheguei à uma hora”.
  • Diante de “aquele”, “aquela”, “aquilo” quando a preposição é exigida: “Refiro-me àquela decisão”, “Assisti àquilo com atenção”.
  • Diante de palavra feminina determinada por artigo, com termo que pede “a”: “Obedeço à lei”, “Aspiro à vaga”, “Respondi à pergunta”.

Casos facultativos

Há três situações em que a crase pode ou não ser usada, sem erro:

  • Antes de pronome possessivo feminino no singular: “Entreguei o documento à minha chefe” ou “a minha chefe”.
  • Antes de nome próprio feminino de pessoa: “Escrevi à Marta” ou “a Marta”.
  • Depois da preposição “até”: “Fui até à porta” ou “até a porta”.

Em questões objetivas, a banca costuma evitar alternativas que dependam apenas do caso facultativo.

Palavras que merecem cuidado: casa, terra e distância

“Casa” sem especificação não admite artigo: “Voltei a casa cedo” (a própria casa). Se vier especificada, admite: “Voltei à casa dos meus pais”. “Terra” com sentido de chão firme, em oposição a navio, não admite artigo: “Os marinheiros chegaram a terra”. Se for a terra de origem, ocorre: “Voltei à terra natal”.

Com “distância”: “Vi o prédio a distância” quando a distância não está determinada, e “Vi o prédio à distância de dois quarteirões” quando está.

Erros comuns a evitar

  • Usar crase antes de verbo por achar que “tudo que é feminino leva”: “Voltou à estudar” está errado.
  • Acentuar depois de palavra que não exige preposição: em “Ele viu a diretora”, o verbo “ver” não pede “a”, então não há crase. Em “Ele obedeceu à diretora”, o verbo “obedecer” pede “a”, então há.
  • Esquecer a crase diante de “aquele”: “Refiro-me aquele fato” deve ser “àquele fato”.
  • Usar crase diante de pronome “cuja”: “A pessoa a cuja decisão me submeti” nunca recebe crase.

Exemplo resolvido

Complete: “Daqui ___ pouco, entregaremos ___ minuta ___ equipe responsável.”

“Daqui a pouco” não tem crase (expressão de tempo com “a” apenas preposição, antes de palavra masculina). “Entregaremos a minuta” não tem crase aí, pois “a minuta” é o objeto direto e “entregar” não pede preposição nesse ponto. “À equipe” leva crase: entregar a alguém (preposição) mais artigo feminino. A frase correta fica: “Daqui a pouco, entregaremos a minuta à equipe responsável.”

Próximos passos

Para reforçar a lógica da preposição, estude regência verbal e os verbos mais cobrados. Depois, treine a leitura atenta de enunciados e confira como organizamos o conteúdo na política editorial.

Leia também

Para continuar no site

Viu algo errado, desatualizado ou confuso? Relatar erro nesta página