Seu navegador não oferece leitura em voz alta. Você pode ler o guia normalmente.
Quando um texto reproduz a fala ou o pensamento de alguém, há três maneiras de fazê-lo. A banca pode pedir que você reconheça a modalidade, transponha uma frase de uma para outra ou diga o efeito de sentido de cada escolha. Este guia ensina o método de transposição passo a passo, com uma tabela das mudanças obrigatórias e exercícios autorais com gabarito conferido.
Sobre a norma: não existe lei ou decreto que regule o discurso direto e indireto. O que há é a norma-padrão da gramática, descrita em gramáticas e dicionários. O que cai em prova é o que o edital da banca prevê para a disciplina de Língua Portuguesa.
As três modalidades
Discurso direto. O narrador cede a palavra ao personagem e reproduz a fala literalmente. Costuma aparecer com travessão, aspas ou dois-pontos e com verbos de elocução (disse, perguntou, respondeu, gritou).
O diretor perguntou: “Você já entregou o relatório?”
Discurso indireto. O narrador conta o que o personagem disse, com suas próprias palavras, em geral por uma oração subordinada ligada ao verbo de elocução por “que” ou “se”. Não há aspas nem travessão.
O diretor perguntou se eu já tinha entregue o relatório.
Discurso indireto livre. A voz do narrador e a do personagem se misturam, sem verbo de elocução e sem marcas gráficas. É comum na literatura e em textos que narram pensamentos.
Marta olhou o relógio. Seria possível que ainda faltassem duas horas? Não aguentava mais aquela fila.
O trecho em que Marta se pergunta se ainda faltam duas horas está na terceira pessoa do narrador, mas traz a dúvida e o cansaço da própria personagem. É isso que caracteriza o indireto livre.
Mudanças obrigatórias na transposição
Ao passar do direto para o indireto, três categorias se ajustam ao ponto de vista do narrador: a pessoa, o tempo verbal e as indicações de lugar e tempo.
| No discurso direto | No discurso indireto |
|---|---|
| primeira pessoa (eu, meu) | terceira pessoa (ele, seu), se quem conta não é o falante |
| presente do indicativo | pretérito imperfeito do indicativo |
| pretérito perfeito | pretérito mais-que-perfeito |
| futuro do presente | futuro do pretérito |
| imperativo | pretérito imperfeito do subjuntivo (ou infinitivo) |
| aqui, este | ali (lá), aquele |
| hoje | naquele dia |
| ontem | na véspera, no dia anterior |
| amanhã | no dia seguinte |
Alguns avisos importantes. Se o verbo de elocução está no presente (por exemplo, “O diretor diz que estou atrasado”), os tempos podem se manter. As correspondências acima valem quando o verbo de elocução está no passado. Além disso, a mudança de pessoa depende de quem está contando: se o próprio falante relata o que disse, a primeira pessoa pode permanecer.
As interrogativas merecem destaque. A pergunta total, que se responde com sim ou não, vira oração iniciada por “se” (“Você entregou?” vira “perguntou se eu tinha entregado”). A pergunta parcial mantém a palavra interrogativa (“Quando você entregou?” vira “perguntou quando eu tinha entregado”).
Passo a passo para transpor
- Identifique o verbo de elocução e coloque-o no passado, se ainda não estiver.
- Escolha o conectivo: “que” para afirmações, “se” para perguntas totais, palavra interrogativa para perguntas parciais.
- Ajuste a pessoa conforme quem narra.
- Ajuste os tempos verbais pela tabela.
- Troque os advérbios e os demonstrativos de lugar e tempo.
- Releia para ver se o sentido se manteve.
Exemplo resolvido
Direto: O gerente disse à equipe: “Amanhã vocês entregarão aqui os formulários que preencheram ontem.”
- Verbo de elocução: “disse”, já no passado.
- Conectivo: afirmação, logo “que”.
- Pessoa: “vocês” passa a “eles”.
- Tempos: “entregarão” (futuro do presente) vira “entregariam” (futuro do pretérito); “preencheram” (pretérito perfeito) vira “tinham preenchido”.
- Advérbios: “amanhã” vira “no dia seguinte”; “aqui” vira “ali” ou “lá”; “ontem” vira “na véspera”.
Indireto: O gerente disse à equipe que, no dia seguinte, eles entregariam ali os formulários que tinham preenchido na véspera.
Efeitos de sentido
A escolha da modalidade não é neutra. O direto dá vivacidade, aproxima o leitor da fala e responsabiliza o personagem pelo que disse. O indireto sintetiza, permite ao narrador filtrar e organizar a informação e é o mais usado em textos jornalísticos, administrativos e jurídicos. O indireto livre aproxima narrador e personagem, o que cria ambiguidade sobre de quem é a opinião. Uma pergunta frequente é “qual o efeito do discurso direto no trecho?”, e a resposta segura costuma ser: dar voz ao personagem e conferir autenticidade ao relato.
Exercícios
- Transponha para o indireto: Paulo afirmou: “Estou preparado para a prova de amanhã.”
- Transponha para o indireto: A professora perguntou: “Quem resolveu a questão ontem?”
- Transponha para o indireto: O chefe ordenou: “Envie o ofício hoje.”
- Transponha para o direto: Ela disse que não tinha entendido a pergunta.
- Classifique: “Pedro entrou na sala. Teria o chefe percebido o atraso? Ora, que importava, afinal.”
- Classifique: Júlia respondeu que voltaria à tarde.
Gabarito
- Paulo afirmou que estava preparado para a prova do dia seguinte. (presente vira imperfeito; “amanhã” vira “no dia seguinte”.)
- A professora perguntou quem tinha resolvido a questão na véspera. (pergunta parcial mantém “quem”; pretérito perfeito vira mais-que-perfeito.)
- O chefe ordenou que enviasse o ofício naquele dia. (imperativo vira pretérito imperfeito do subjuntivo; também seria aceitável “ordenou enviar o ofício naquele dia”, com infinitivo).
- Ela disse: “Não entendi a pergunta.” (o mais-que-perfeito “tinha entendido” volta ao pretérito perfeito “entendi”).
- Discurso indireto livre: a pergunta e o comentário final trazem o pensamento de Pedro sem verbo de elocução e sem aspas.
- Discurso indireto: há verbo de elocução (“respondeu”) e oração subordinada introduzida por “que”.
Erros comuns
- Manter “amanhã”, “hoje” e “aqui” no indireto, o que dá ao leitor a referência do falante e não a do narrador.
- Esquecer a mudança de pessoa quando o narrador não é o falante.
- Trocar “se” por “que” nas perguntas totais.
- Confundir indireto livre com direto sem aspas: no indireto livre não há verbo de elocução, e o pronome e o tempo verbal seguem o narrador.
- Pensar que toda oração com “que” após “disse” é indireto livre: nesse caso há verbo de elocução, logo é indireto.
Próximos passos
- Veja a pontuação do diálogo em sinais gráficos: dois-pontos, travessão, parênteses e aspas.
- Revise os tempos e modos verbais.
- Aplique a reescrita de frases.
Fontes e atualização
A Constituição apenas fixa o idioma oficial; não há norma jurídica que defina as regras de discurso direto e indireto. O conteúdo acima segue a norma-padrão e o roteiro de transposição usual, com exemplos elaborados por nós. Confira o conteúdo programático do edital.