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Apóstrofo, contrações com de e em e hei de: Bases XVII e XVIII

O apóstrofo é um sinal pequeno que rende questões de ortografia porque o texto do Acordo Ortográfico o admite em poucos casos e o proíbe expressamente em outros, que são justamente os mais comuns na escrita do dia a dia (do, no, dele, naquele). A Base XVIII reúne as duas listas, e a Base XVII, ao tratar do hífen na ênclise, ensina por que é “hei de” e não “hei-de”. Este guia organiza os dois blocos.

Onde o apóstrofo é admitido (Base XVIII, 1º)

a) Para cindir uma contração quando um elemento pertence a outro conjunto vocabular. É o caso de nomes de obras que começam por artigo: d’Os Lusíadas, n’Os Sertões, pel’Os Sertões. A contração é desfeita porque o artigo “Os” faz parte do título. O texto lembra que nada obsta a que se use a preposição íntegra se a clareza o exigir: de Os Lusíadas, em Os Lusíadas. E que, com a preposição “a”, a dissolução gráfica se faz sem apóstrofo: “recorro a Os Lusíadas”, em que a leitura mantém a fusão fonética (a Os = aos).

b) Para realçar pronome com inicial maiúscula, em usos reverenciais: d’Ele, n’Ele, d’Aquele, d’Ela, n’Ela. O texto exemplifica com “confiamos n’O que nos salvou” e “está n’Ela a nossa esperança”. A segunda parte, no masculino, aplica-se a Deus ou a Jesus; no feminino, à mãe de Jesus ou à Providência. Com a preposição “a”, a dissolução se faz sem apóstrofo: a O, a Aquele, a Aquela.

c) Em ligações de “santo” e “santa” a nomes do hagiológio, para marcar a elisão da vogal final: Sant’Ana, Sant’Iago. Quando passam a formar unidade, aglutinam-se: Santana de Parnaíba, Santiago do Cacém. O mesmo vale para antropônimos com elisão do o final: Nun’Álvares, Pedr’Eanes. Mas o texto observa que as escritas sem apóstrofo (Santa Ana, Nuno Álvares) continuam válidas.

d) Em certos compostos, para assinalar a elisão do e da preposição de diante de substantivos: borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo.

Onde o apóstrofo é proibido (Base XVIII, 2º)

Aqui está a maior parte das questões. O texto afirma que não é admissível o apóstrofo nas combinações das preposições de e em com artigo definido, com formas pronominais diversas e com formas adverbiais (ressalvadas as alíneas 1º, a e b). Essas combinações são escritas:

Em uma só palavra, quando formam uniões perfeitas:

Com de Com em
do, da, dos, das no, na, nos, nas
dele, dela, deles, delas nele, nela, neles, nelas
deste, desta, disto neste, nesta, nisto
desse, dessa, disso nesse, nessa, nisso
daquele, daquela, daquilo naquele, naquela, naquilo
daqui, daí, dali, dacolá, donde num, numa, nuns, numas
dantes (= antigamente) noutro, noutra, nalgum, nalguma

Em uma ou duas palavras, quando não são uniões fixas (a escolha é do redator): de um ou dum; de uma ou duma; de algum ou dalgum; de outro ou doutro; de outra ou doutra; de entre ou dentre; de além ou dalém; de aquém ou daquém. O texto acrescenta que se admite a locução “de ora avante” ou o advérbio “doravante”.

Em resumo, nunca se escreve d’ele, n’ele, d’aquele, n’um. Os exemplos oficiais usam “dele”, “nele”, “daquele”, “num”.

Preposição e sujeito de infinitivo

Uma observação da Base XVIII tem impacto em redação: quando a preposição de se combina com artigo ou pronome iniciado por vogal, mas essas palavras estão em construção de infinitivo, não se emprega apóstrofo nem se funde a preposição: a fim de ele compreender; apesar de o não ter visto; em virtude de os nossos pais serem bondosos; o fato de o conhecer; por causa de aqui estares. Esse é o fundamento da regra contra o “sujeito preposicionado”: veja sujeito preposicionado e frases fragmentadas.

Hífen na ênclise e o verbo haver (Base XVII)

A Base XVII, 1º, determina o hífen na ênclise e na mesóclise: amá-lo, dá-se, deixa-o, partir-lhe; amá-lo-ei, enviar-lhe-emos. O 2º diz que não se emprega hífen nas ligações da preposição de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, há de, hão de. Portanto, “hei de ir”, “hão de vir”, sem hífen.

As observações acrescentam que:

  • querer e requerer têm as formas “quer” e “requer”, mas na ênclise usam “quere-o”, “requere-o”;
  • usa-se hífen na ligação de pronome enclítico ao advérbio eis (eis-me, ei-lo) e nas combinações de pronomes do tipo no-lo, vo-las, também em próclise (“esperamos que no-lo comprem”).

Para treinar a colocação do pronome, veja colocação pronominal.

Exercícios resolvidos

1. Escolha a grafia correta: (a) “O livro fala n’Os Sertões” ou “O livro fala nos Sertões”? Resolução: com apóstrofo, n’Os Sertões, mantém o título intacto (Os Sertões é título). A forma “nos Sertões” altera a referência. Pelo texto oficial, a cisão com apóstrofo é a forma prevista para título.

2. Corrija: “Ele saiu d’aqui e foi n’um lugar distante.” Resolução: “Ele saiu daqui e foi num lugar distante.” Daqui e num são uniões perfeitas, sem apóstrofo.

3. Julgue: “Está correto escrever ‘cobra-d’água’.” Resolução: certo. É um dos compostos da Base XVIII, 1º, d.

4. Julgue: “Segundo o Acordo, ‘hei-de’ é a grafia correta de ‘hei de’.” Resolução: errado. Não se usa hífen entre as formas monossilábicas de haver e a preposição de.

5. Julgue: “Tanto ‘de outro’ quanto ‘doutro’ são admitidas.” Resolução: certo. Não constituem uniões fixas, e o texto admite as duas formas.

6. Corrija: “Apesar do relatório estar pronto, faltou assinatura.” Resolução: “Apesar de o relatório estar pronto, faltou assinatura.” Sujeito do infinitivo não se funde com a preposição.

Erros comuns

  • Usar apóstrofo em d’ele, n’aquele, d’aqui.
  • Colocar hífen em “hei de”, “há de”.
  • Escrever esses compostos sem hífen ou sem apóstrofo: no texto oficial, são pau-d’alho, cobra-d’água, mãe-d’água.
  • Achar que “doutro” e “dalgum” são obrigatórios ou errados: são alternativas a “de outro” e “de algum”.
  • Confundir a ênclise com a próclise nas combinações no-lo e vo-las.

Próximos passos

Fontes e atualização

Conferido nas Bases XVII e XVIII do texto oficial na data de publicação deste guia. Para palavras específicas, siga o vocabulário ortográfico que o edital indicar.

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