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Acordo Ortográfico: hífen, consoantes mudas e maiúsculas

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou na ordem jurídica brasileira pelo Decreto 6.583/08, e o texto das bases está anexo ao decreto, no Planalto. Em prova, o que mais cai é o hífen (Bases XV a XVII), seguido das consoantes que se mantêm ou caem (Base IV) e do uso de maiúsculas (Base XIX). Este guia segue o texto oficial base por base e deixa a acentuação para o guia de acentuação gráfica.

O que o decreto determina e como estudar

O Decreto 6.583/08 manda executar o Acordo “tão inteiramente como nele se contém”. O período de transição, em que conviviam a norma antiga e a nova, foi prorrogado pelo Decreto 7.875/12 e já terminou. Hoje vale somente a grafia nova, e as bancas cobram as bases como regra, com exemplos retirados do próprio anexo.

Uma ressalva importante: o Acordo estabelece regras, não lista todas as palavras. Para uma palavra isolada, a banca costuma seguir um vocabulário ortográfico reconhecido. Se uma questão depender de dicionário, o enunciado ou o edital indicará a obra; sem isso, prefira sempre a regra do Acordo.

Hífen em palavras compostas (Base XV)

O hífen é usado nos compostos por justaposição que formam uma unidade de sentido e mantêm acento próprio: ano-luz, arco-íris, decreto-lei, tenente-coronel, segunda-feira, guarda-chuva, primeiro-ministro, azul-escuro. O texto oficial traz ainda estas regras.

  • Bem e mal formam composto com hífen quando o segundo elemento começa por vogal ou h: bem-estar, mal-estar, bem-humorado, mal-humorado. O texto lembra que “bem” pode não se aglutinar com consoante (bem-falante, bem-visto), ao contrário de “mal” (malcriado, malvisto).
  • Além, aquém, recém e sem pedem hífen: além-mar, recém-casado, recém-nascido, sem-vergonha.
  • Locuções não levam hífen, salvo exceções consagradas. Sem hífen: fim de semana, sala de jantar, cada um, à vontade, a fim de, ao passo que. Com hífen, por tradição: água-de-colônia, cor-de-rosa, pé-de-meia, mais-que-perfeito, à queima-roupa.
  • Espécies botânicas e zoológicas levam hífen: couve-flor, erva-doce, bem-te-vi, andorinha-do-mar.
  • Encadeamentos vocabulares (ligam palavras que se combinam ocasionalmente) também: ponte Rio-Niterói, ligação Angola-Moçambique.
  • Alguns compostos perderam a noção de composição e se aglutinam: girassol, paraquedas, pontapé, madressilva.

Hífen com prefixos (Base XVI)

Esta é a base mais cobrada. O texto diz que, nas formações com prefixos (anti-, contra-, extra-, infra-, intra-, sobre-, super-, supra-, ultra- e outros) e com elementos de recomposição (aero-, agro-, auto-, bio-, eletro-, geo-, hidro-, macro-, micro-, mini-, multi-, neo-, pseudo-, semi-, tele- e outros), só se emprega o hífen em casos listados. Fora deles, escreve-se junto.

Caso Regra Exemplos do texto oficial
Segundo elemento começa por h hífen anti-higiênico, co-herdeiro, extra-humano, pré-história, super-homem, semi-hospitalar
Prefixo termina na mesma vogal com que o segundo elemento começa hífen anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, micro-onda, auto-observação, semi-interno
circum- e pan- + vogal, m ou n hífen circum-navegação, pan-africano, pan-negritude
hiper-, inter-, super- + r hífen hiper-requintado, inter-resistente, super-revista
ex- (estado anterior), sota-, soto-, vice-, vizo- hífen ex-presidente, vice-reitor, vizo-rei
pós-, pré-, pró- tônicos, quando o segundo elemento tem vida própria hífen pós-graduação, pré-escolar, pró-africano

Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, não há hífen e a consoante dobra: antirreligioso, antissemita, contrarregra, minissaia, biorritmo, microssistema. Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, também não há hífen: antiaéreo, extraescolar, aeroespacial, autoestrada, agroindustrial, plurianual. Os prefixos átonos pos-, pre- e pro- se aglutinam: pospor, prever, promover. O prefixo co- se junta ao segundo elemento mesmo quando este começa por o: coobrigação, cooperar, coordenar.

Atenção ao h: o texto observa que des- e in- não levam hífen mesmo quando o segundo elemento perdeu o h inicial: desumano, inumano, inábil.

Passo a passo para decidir

  1. Identifique o prefixo e se ele está na lista do Acordo (anti-, auto-, micro-, ultra- etc.).
  2. Olhe a última letra do prefixo e a primeira do segundo elemento.
  3. Se for h, ou vogal igual, ou um dos casos especiais da tabela, use hífen.
  4. Se o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, dobre a consoante, sem hífen.
  5. Em qualquer outra combinação, escreva junto.

Aplicação resolvida

  • anti + inflamatório: o prefixo termina em i e o segundo elemento começa por i, mesma vogal. Resultado: anti-inflamatório.
  • anti + social: termina em vogal e o segundo começa por s. Resultado: antissocial.
  • auto + estrada: vogais diferentes (o e e). Resultado: autoestrada, como no texto oficial.
  • micro + ondas: o e o, mesma vogal. Resultado: micro-ondas.
  • ultra + som: termina em vogal, segundo começa por s. Resultado: ultrassom.
  • extra + oficial: a e o, diferentes. Resultado: extraoficial.
  • hiper + mercado: o hífen de hiper- só aparece antes de h ou de r (hiper-requintado), e aqui o segundo elemento começa por m. Resultado: hipermercado.
  • ex + diretor: caso especial. Resultado: ex-diretor.
  • pré + história: h inicial e prefixo tônico acentuado. Resultado: pré-história.

Sufixos, ênclise e o verbo haver (Bases XVI e XVII)

Na sufixação, o hífen só aparece em vocábulos com sufixos de origem tupi-guarani que representam formas adjetivas (açu, guaçu, mirim), quando o primeiro elemento termina em vogal acentuada graficamente ou a pronúncia exige a distinção: amoré-guaçu, capim-açu, anajá-mirim. Na ênclise e na mesóclise usa-se hífen: amá-lo, dá-se, amá-lo-ei. Não há hífen entre “hei”, “hás”, “há”, “hão” e a preposição “de”: hei de, hão de.

Consoantes que se mantêm ou caem (Base IV)

O texto manda conservar o c e o p que são pronunciados na pronúncia culta (compacto, convicção, ficção, pacto; adepto, apto, erupção, rapto) e eliminar os que são sempre mudos (ação, coleção, direção, exato, ato; adoção, ótimo). Há ainda os casos em que o uso oscila, e a grafia é facultativa: aspecto e aspeto, facto e fato, setor e sector, receção e recepção. Quando o p cai nas sequências mpc, mpç e mpt, o m vira n: assunção, perentório, suntuoso.

Pegadinha: o facultativo vale para as duas grafias do mesmo par. Em questão do tipo “está incorreta a grafia”, não se pode condenar uma delas se o par consta como facultativo na base.

Trema e maiúsculas

O trema é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas (Base XIV): frequentar, tranquilo, cinquenta, linguista, equestre, aguentar. O texto mantém, porém, os sinais de nomes próprios estrangeiros e seus derivados (Base I): mülleriano, de Müller.

Sobre maiúsculas e minúsculas (Base XIX), o texto determina:

  • Minúscula inicial para dias da semana, meses e estações do ano: segunda-feira, outubro, primavera. Também para pontos cardeais (norte, sul), mas não para as abreviaturas (SW).
  • Maiúscula inicial para pontos cardeais ou equivalentes usados de modo absoluto (Nordeste, quando designa a região), nomes de instituições, nomes de festas (Natal, Páscoa), topônimos e antropônimos, e siglas.
  • Facultativa a maiúscula nos nomes de disciplinas e cursos (português ou Português, matemática ou Matemática) e em categorizações de logradouros (rua ou Rua da Liberdade).

Erros comuns

  • Escrever “antisocial” ou “antirreligioso” com um só r ou s: o r e o s dobram quando o prefixo termina em vogal.
  • Escrever “extra-oficial” ou “auto-estrada” com hífen: vogais diferentes, sem hífen.
  • Esquecer o hífen em “anti-inflamatório” e “micro-ondas”: vogais iguais.
  • Esquecer o hífen em “ex-presidente”: o texto prevê hífen com ex- no sentido de estado anterior ou cessamento.
  • Afirmar que toda palavra com “super-” ou “inter-” leva hífen: só antes de h ou r. Regra: superinteressante, mas super-homem e inter-regional.

Próximos passos

Fontes e atualização

Conferido nas fontes acima na data de publicação deste guia. O Acordo fixa regras; para a grafia de uma palavra específica, siga o vocabulário ortográfico indicado pelo edital ou pela banca.

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