Português

Alfabeto, h inicial e letras k, w, y: Bases I e II do Acordo

O Acordo Ortográfico abre, na Base I, com algo que parece óbvio e rendeu muita discussão: o alfabeto da língua portuguesa passou a ter vinte e seis letras, com a inclusão formal do k, do w e do y. A mesma base diz quando essas letras são usadas, e a Base II trata do h no começo e no fim das palavras. São duas bases curtas, com regras claras e exemplos oficiais, boas para quem quer garantir uma questão de ortografia sem gastar horas de estudo.

O alfabeto (Base I, 1º)

O alfabeto é formado por vinte e seis letras, cada uma com forma minúscula e maiúscula: a, b, c, d, e, f, g, h, i, j, k, l, m, n, o, p, q, r, s, t, u, v, w, x, y, z. O texto atribui nomes a elas, como “cê”, “gê ou guê”, “agá”, “capa ou cá”, “dáblio” e “ípsilon”, e observa que os nomes sugeridos não excluem outras formas de designá-las.

Além das 26 letras, o texto lembra o ç (cê cedilhado) e os dígrafos: rr, ss, ch, lh, nh, gu e qu.

Quando se usam k, w e y (Base I, 2º)

Essas letras não substituem c, v e i no vocabulário comum; aparecem em casos especiais:

Caso Exemplos do texto oficial
Antropônimos de outras línguas e seus derivados Franklin, frankliniano; Kant, kantismo; Darwin, darwinismo; Byron, byroniano; Taylor, taylorista
Topônimos de outras línguas e seus derivados Kwanza, Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano
Siglas, símbolos e unidades de medida de curso internacional TWA, KLM; K (potássio), W (oeste); kg, km, kW, yd; Watt

Portanto, “quilograma” e “quilômetro” são as palavras; “kg” e “km” são os símbolos. Em palavras do português comum, não se usa k (quilo, e não kilo) nem w ou y.

Derivados de nomes próprios estrangeiros (Base I, 3º)

Mantêm-se nos derivados eruditos de nomes próprios estrangeiros as combinações gráficas e os sinais não peculiares ao português: comtista (de Comte), mülleriano (de Müller), shakespeariano (de Shakespeare), garrettiano (de Garrett). Por isso o trema ainda aparece em mülleriano, mesmo extinto nas palavras portuguesas.

Nomes bíblicos e topônimos estrangeiros (Base I, 4º a 6º)

  • Os dígrafos finais de origem hebraica ch, ph e th podem conservar-se em nomes da tradição bíblica (Baruch, Loth) ou simplificar-se (Baruc, Lot). Se são mudos, eliminam-se: José, Nazaré (e não Joseph, Nazareth).
  • As consoantes finais b, c, d, g e t mantêm-se, mudas ou proferidas, nas formas consagradas: Jacob, Job, Isaac, David, Gad. O texto acrescenta que nada impede usar Jó, Davi e Jacó.
  • Recomenda-se substituir topônimos estrangeiros por formas portuguesas, quando antigas e vivas: Antuérpia (Anvers), Genebra (Genève), Milão (Milano), Munique (München), Turim (Torino), Zurique (Zürich).

O h (Base II)

H inicial: emprega-se

  1. Por etimologia: haver, hélice, hera, hoje, hora, homem, humor.
  2. Por adoção convencional, nas interjeições: hã?, hem?, hum!.

H inicial: suprime-se

  1. Quando a supressão, apesar da etimologia, está consagrada pelo uso: erva (e não herva) e os derivados ervanário, ervoso. Contraste com herbáceo, herbanário, herboso, de origem erudita.
  2. Quando, por composição, o h passa a interior e o elemento se aglutina ao anterior: biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem, reabilitar, reaver.

H inicial: mantém-se com hífen

Quando o elemento com h está ligado ao anterior por hífen, o h permanece: anti-higiênico, contra-haste, pré-história, sobre-humano. É a razão de “super-homem” e “co-herdeiro” levarem hífen e h (Base XVI).

H final

Emprega-se em interjeições: ah!, oh!.

Quadro de decisão

  1. A palavra é de uso comum em português? Não use k, w, y (quilo, e não kilo). Para empréstimos recentes, consulte o vocabulário ortográfico.
  2. É nome próprio estrangeiro, sigla ou símbolo? Mantenha as letras originais.
  3. O h está no começo de elemento unido por prefixo?
    • Com hífen (pré-história): mantém o h.
    • Sem hífen (desumano, inábil, reaver): o h cai.
  4. É interjeição? Admite h final (ah!, oh!) e h inicial (hum!, hem?).

Exercícios resolvidos

1. Julgue: “Segundo a Base I, o alfabeto da língua portuguesa tem vinte e três letras, não incluindo k, w e y.” Resolução: errado. O alfabeto tem vinte e seis letras, incluindo k, w e y.

2. Julgue: “A palavra ‘darwinismo’ é grafada com w por derivar de nome próprio estrangeiro.” Resolução: certo (Base I, 2º, a).

3. Escolha a forma correta: “des-humano” ou “desumano”? Resolução: desumano. O prefixo des- não leva hífen, e o h cai quando passa a interior em palavra aglutinada (Base II, 2º, b, e Base XVI, observação).

4. Escolha a forma correta: “pré-historia” ou “pré-história”? Resolução: pré-história. O elemento é ligado por hífen, e o h inicial se mantém (Base II, 3º).

5. Julgue: “A grafia ‘herva’ é a única aceita pelo Acordo, pois o h inicial é etimológico.” Resolução: errado. O texto manda suprimir o h em erva, por estar consagrado pelo uso.

6. Julgue: “O texto admite escrever Jó, Davi e Jacó, sem a consoante final, em lugar de Job, David e Jacob.” Resolução: certo. A Base I, 5º, diz que nada impede o uso dessas formas sem a consoante final.

Erros comuns

  • Usar k, w ou y em palavras comuns do português: escreve-se quilo e quilômetro, e os símbolos kg e km.
  • Escrever “desumano” com hífen: des- e in- não levam hífen.
  • Escrever “herva” ou “erva-doce” com h: o h inicial caiu.
  • Dispensar o h em “pré-história” ou “super-homem”.
  • Esquecer que o trema permanece em nomes próprios estrangeiros e derivados (mülleriano).

Próximos passos

Fontes e atualização

Conferido nas Bases I e II do texto oficial na data de publicação deste guia. Para palavras estrangeiras incorporadas ao português, siga o vocabulário ortográfico indicado pelo edital.

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