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Toda língua viva varia: o brasiliense fala diferente do gaúcho, o jovem do idoso, o juiz da audiência do mesmo juiz num churrasco. Essa variação é objeto de questões de Português que costumam apresentar um texto com marcas de oralidade, gíria ou regionalismo e perguntar qual variedade ele representa, ou se é adequado a uma situação. O assunto também alcança a redação oficial: o Manual de Redação da Presidência da República trata do equilíbrio entre norma padrão, neologismos, estrangeirismos e jargão. Este guia organiza o tema de modo prático.
Língua, variedades e norma
Língua é o sistema comum a uma comunidade; variedades são as formas como esse sistema se realiza em contextos distintos; norma é o conjunto de usos tomado como referência. Dois termos costumam ser cobrados:
- Norma culta: a variedade usada por falantes escolarizados em situações monitoradas (a fala e a escrita de pessoas com ensino superior, em contexto formal).
- Norma padrão: um modelo idealizado, registrado em gramáticas e dicionários, que serve de referência para o ensino e para textos formais.
Na prática, muitas provas usam os dois termos como quase sinônimos. O Manual, por exemplo, afirma que “não existe propriamente um padrão oficial de linguagem” e que o que há é o uso da norma padrão nos atos e nas comunicações oficiais.
Tipos de variação
| Tipo | O que varia | Exemplo |
|---|---|---|
| Diatópica (regional) | O lugar | mandioca, aipim, macaxeira; “uai”, “tchê” |
| Diastrática (social) | O grupo social, a escolaridade, a profissão | gíria de jovens; jargão jurídico ou médico |
| Diafásica (de registro) | A situação de comunicação | “Solicito” (formal) x “Preciso de” (informal) |
| Diacrônica (histórica) | O tempo | “vosmecê” > “você”; arcaísmos |
| Diamésica (modalidade) | Fala x escrita | marcas de oralidade (“né”, “tipo assim”) |
Os exemplos acima são ilustrativos; o que importa em prova é reconhecer o tipo a partir do trecho.
Registro formal e informal
O registro formal (ou monitorado) valoriza a norma padrão, a precisão e a impessoalidade: é o registro de leis, ofícios, pareceres e provas discursivas. O registro informal (ou coloquial) aceita contrações, gírias, abreviações e construções próprias da oralidade: “tô”, “pra”, “a gente vai”.
Nenhum dos dois é “errado”; a questão é a adequação à situação. Escrever “A gente vai se reunir amanhã, tá?” num ofício é inadequado, mas a mesma frase numa conversa informal é perfeitamente adequada.
Marcas de informalidade
- Gírias e expressões populares: “cara”, “tipo”, “rolar”.
- Contrações e abreviações: “pra”, “tô”, “num”.
- Repetições e hesitações: “né”, “tipo assim”.
- Colocação pronominal informal: “Me avisa quando chegar.”
O que o Manual da Presidência diz
O Manual trata o tema em três pontos.
- Norma padrão e jargão. Em razão do caráter público e da finalidade, os atos normativos e os expedientes oficiais exigem o uso do padrão culto. O padrão culto não é sinônimo de linguagem rebuscada, nem de figuras de linguagem próprias do estilo literário; e o jargão burocrático, como todo jargão, deve ser evitado, pois terá sempre compreensão limitada.
- Regionalismos e neologismos. Entre as sugestões para clareza, o Manual orienta não utilizar regionalismos e neologismos. Na seção de semântica, avisa que o idioma está em constante mutação e que a redação oficial não pode alhear-se das transformações, nem incorporá-las acriticamente; as novidades vocabulares devem ser usadas com critério.
- Estrangeirismos. O importante é usar o estrangeirismo de forma consciente, buscar o equivalente português quando houver ou conformar a palavra estrangeira ao espírito da língua. Palavras estrangeiras ainda não incorporadas vão em itálico.
O Manual resume assim a ideia: a língua culta é contra a pobreza de expressão, e não contra a sua simplicidade; valer-se do padrão culto não significa usar a língua de modo rebuscado.
Como resolver questões de variação
- Identifique a situação de comunicação: quem fala, a quem, onde, com que finalidade.
- Procure marcas: vocabulário (gíria, termo regional, termo técnico), sintaxe (colocação pronominal, concordância), pontuação e ortografia (imitando a fala).
- Classifique a marca: regional (diatópica), social (diastrática), de registro (diafásica), temporal (diacrônica) ou de modalidade (fala/escrita).
- Avalie a adequação: a variedade é compatível com a situação?
- Evite o juízo de valor: a gramática atual trata como inadequação, e não como “erro”, o uso de uma variedade em contexto que pede outra.
Exercícios resolvidos
1. Classifique a variação: “Vou fazer um lanche e já volto, uai.” Resolução: o “uai” é marca de variação regional (diatópica).
2. Classifique: “O réu foi citado para apresentar contestação no prazo legal.” Resolução: registro formal com vocabulário técnico (jargão jurídico), variação diastrática/diafásica.
3. Julgue: “A expressão ‘a gente vai pedir a demissão’ representa um erro gramatical, porque ‘a gente’ não pode substituir ‘nós’.” Resolução: errado. O uso de “a gente” por “nós” é próprio do registro informal; em texto formal, prefere-se “nós” ou a forma impessoal, mas não se trata de erro, e sim de adequação.
4. Julgue: “Em um ofício, o uso de gírias é permitido desde que o servidor queira aproximar-se do leitor.” Resolução: errado. O Manual exige o padrão culto e recomenda evitar coloquialismos e regionalismos em textos oficiais.
5. Julgue: “A norma padrão é a única variedade correta da língua, e as demais variedades são erros.” Resolução: errado. As variedades têm valor próprio; a norma padrão é a referência de situações formais.
6. Reescreva em registro formal: “Tô precisando de uma ajuda pra resolver esse negócio aí.” Resolução: “Preciso de ajuda para resolver esta questão.” (exemplo de reescrita: eliminam-se contrações e vocabulário coloquial).
Erros comuns
- Confundir norma culta com linguagem rebuscada.
- Tratar toda marca de oralidade como erro.
- Achar que “variação” só é geográfica.
- Usar gíria ou regionalismo em redação oficial.
- Confundir estrangeirismo (aceito com critério) com palavra que tem equivalente em português.
Próximos passos
- Aplique a norma padrão em erros comuns em redação de concurso.
- Veja as funções da linguagem em tipologia textual e gêneros textuais.
- Reveja o sentido das palavras em semântica: sinonímia, polissemia e parônimos.
Fontes e atualização
As orientações sobre norma padrão, regionalismos, neologismos, estrangeirismos e jargão foram conferidas na 3ª edição do Manual, na data de publicação deste guia. A classificação dos tipos de variação segue a bibliografia usual das bancas; confira a indicada no edital.