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“Vícios de linguagem” é o nome tradicional dos desvios que prejudicam a correção ou a clareza de um texto. As bancas os cobram de duas formas: pedindo que o candidato identifique o vício num trecho (“trata-se de solecismo ou de barbarismo?”) e pedindo que corrija a frase. O Manual de Redação da Presidência da República toca em vários deles (pleonasmos, cacófatos, ambiguidade, estrangeirismos), o que os torna úteis também em redação oficial. Este guia define cada um e treina com exemplos.
Solecismo: erro de sintaxe
Solecismo é o desvio de sintaxe: concordância, regência ou colocação.
- De concordância: “Houveram muitos problemas” (o verbo haver, no sentido de existir, é impessoal: “Houve muitos problemas”); “Fazem dois anos que ele ingressou” (“Faz dois anos”).
- De regência: “Assisti o filme” (assistir, no sentido de ver, é transitivo indireto: “Assisti ao filme”); “Prefiro cinema do que teatro” (“Prefiro cinema a teatro”); “Aspiro um cargo” (no sentido de desejar: “Aspiro a um cargo”).
- De colocação: “Me disseram que o prazo mudou” (início de frase: “Disseram-me”).
Os exemplos de haver e fazer, e a regência de preferir, constam do Manual.
Barbarismo: erro na palavra
Barbarismo é o desvio na forma ou no significado de uma palavra isolada: grafia, pronúncia, flexão, uso de palavra no lugar de outra. Exemplos: “bandeija” (bandeja), “previlégio” (privilégio), “adevogado” (advogado), “salchicha” (salsicha), “infringir a pena” (por infligir, confusão de parônimos).
Também se costuma incluir o estrangeirismo desnecessário quando há equivalente em português. O Manual orienta usar o estrangeirismo de forma consciente, buscar o equivalente português quando houver e grafar em itálico a palavra estrangeira não incorporada.
Ambiguidade (anfibologia)
É o duplo sentido que resulta da construção da frase: “O Ministro disse ao Secretário que ele seria promovido.” (ele = Ministro ou Secretário?). O Manual trata o assunto na parte de sintaxe e recomenda escolher expressão ou palavra que não confira duplo sentido ao texto. Soluções: repetir o nome, mudar a ordem, usar discurso direto.
Uma pegadinha: “Viu o filho do vizinho doente.” Doente é o filho ou o vizinho? Reescrita: “Viu o filho do vizinho, que estava doente.”
Cacofonia (cacófato)
É o efeito sonoro desagradável ou indesejado que resulta da combinação de sílabas de palavras vizinhas: “por cada” (porcada), “vez passada” (vespassada), “uma mão” (mamão), “ela tinha” (latinha), “boca dela” (cadela).
O Manual define cacófato como “o encontro de sílabas em que a malícia descobre um novo termo com sentido torpe ou ridículo” e faz uma ressalva: não é preciso estender a preocupação a um sem-número de locuções que produzem terceiro sentido, como “por cada” e “vez passada”; trata-se sobretudo de questão de estilo e de sensibilidade do autor. Ou seja, evite os casos evidentes, sem obsessão.
Eco
É a repetição de sons idênticos ou semelhantes em palavras próximas, que dá efeito monótono: “A ação da população na eleição gerou indignação.” Corrige-se variando as palavras ou reformulando.
Pleonasmo vicioso
Pleonasmo é a repetição de uma ideia já contida na palavra. É vicioso quando não acrescenta nada:
| Pleonasmo vicioso | Forma adequada |
|---|---|
| subir para cima, descer para baixo | subir, descer |
| entrar para dentro, sair para fora | entrar, sair |
| elo de ligação | elo |
| encarar de frente | encarar |
| conviver junto | conviver |
| há dois anos atrás | há dois anos |
| ambos os dois, ambos de dois | ambos (ou os dois) |
| enquanto que | enquanto |
Os dois últimos casos constam do Manual: ele manda evitar “ambos dois” e “ambos os dois” (use “todos os dois” para enfatizar a dualidade), “há dois anos atrás” (haver já indica tempo passado) e “enquanto que”.
O pleonasmo é literário (aceito) quando tem função expressiva: “Vi com meus próprios olhos”, “Chorou lágrimas amargas”. O vicioso é o que repete sem acrescentar sentido.
Outros vícios usuais
- Obscuridade: frase de sentido difícil por excesso de intercalações ou palavras raras.
- Preciosismo: palavras rebuscadas sem necessidade, que o Manual desaconselha.
- Arcaísmo: palavra ou expressão ultrapassada (“vosmecê”).
- Neologismo: palavra nova; deve ser usada com critério em textos oficiais.
- Jargão: vocabulário restrito a um grupo, que o Manual manda evitar em comunicações oficiais.
Como identificar na prova
- Vício na palavra isolada? Barbarismo.
- Vício na relação entre palavras (concordância, regência, colocação)? Solecismo.
- Frase com dois sentidos? Ambiguidade.
- Som de duas palavras seguidas forma outra palavra? Cacofonia.
- Mesmo som se repete? Eco.
- Ideia repetida sem necessidade? Pleonasmo vicioso.
Exercícios resolvidos
1. Classifique o vício: “Houveram dúvidas sobre o edital.” Resolução: solecismo de concordância (haver impessoal: houve).
2. Classifique: “Assisti o julgamento.” Resolução: solecismo de regência (assistir ao julgamento).
3. Classifique: “O servidor pediu um previlégio.” Resolução: barbarismo (a grafia correta é privilégio).
4. Classifique: “O chefe falou com o auxiliar e depois ele saiu.” Resolução: ambiguidade (quem saiu?).
5. Classifique: “Subiu para cima da mesa.” Resolução: pleonasmo vicioso.
6. Julgue: “A expressão ‘há dois anos atrás’ é considerada pleonasmo vicioso pelo Manual.” Resolução: certo.
7. Julgue: “O Manual determina que se evite totalmente qualquer expressão que possa produzir cacófato, como ‘vez passada’.” Resolução: errado. O Manual diz que não é preciso estender a preocupação a todas as locuções que produzem terceiro sentido; é questão de estilo e sensibilidade.
Erros comuns
- Confundir solecismo (sintaxe) com barbarismo (palavra).
- Achar que todo pleonasmo é erro.
- Ver cacófato em tudo e esquecer os erros de concordância.
- Não reconhecer ambiguidade provocada por pronome sem referente.
Próximos passos
- Treine a correção em reescrita: paralelismo, comparação e ambiguidade.
- Estude expressões a evitar na redação oficial.
- Reveja a concordância verbal.
Fontes e atualização
Foram conferidos no Manual (3ª edição), na data de publicação deste guia, os trechos sobre cacófatos, “ambos os dois”, “há dois anos atrás”, “enquanto que”, ambiguidade, regência de preferir e concordância de haver e fazer. A classificação dos vícios segue a gramática tradicional; confira a bibliografia do edital.