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Modalização e verbos de dizer: o posicionamento do autor no texto

“O autor afirma”, “o autor sugere”, “o autor lamenta”: cada verbo que apresenta uma ideia traz embutida uma postura. Também “talvez”, “certamente” e “infelizmente” mostram o quanto o autor se compromete com o que diz. Esse conjunto de recursos é a modalização, e é com ela que a banca testa se você distingue um fato de uma opinião, uma certeza de uma hipótese. Este guia organiza os recursos em quadros, ensina a ler o grau de compromisso do autor e traz exercícios autorais com gabarito.

Não há norma jurídica sobre o assunto. A referência é a norma-padrão e o edital da prova.

O que é modalizar

Modalizar é marcar, na própria frase, a atitude do falante diante do conteúdo: certeza, dúvida, obrigação, avaliação, aprovação ou crítica. Compare:

  1. A reforma reduziu as filas.
  2. Provavelmente a reforma reduziu as filas.
  3. Felizmente a reforma reduziu as filas.
  4. Dizem que a reforma reduziu as filas.

O fato é o mesmo. Em (1), o autor afirma sem reservas; em (2), mostra dúvida; em (3), avalia positivamente; em (4), transfere a responsabilidade a terceiros.

Os recursos mais usados

Tipo de modalização Recursos Exemplo
Certeza certamente, sem dúvida, evidentemente, é claro Certamente haverá recurso.
Dúvida ou probabilidade talvez, provavelmente, possivelmente, parece Talvez haja recurso.
Obrigação e necessidade dever, ser preciso, ser necessário, haver de É necessário rever o edital.
Avaliação felizmente, infelizmente, lamentavelmente, surpreendentemente Infelizmente, o prazo acabou.
Delimitação em tese, de certo modo, em parte, em geral Em tese, o recurso suspende o prazo.
Atribuição segundo, de acordo com, dizem que, conforme Segundo o relatório, houve atraso.

Verbos de dizer (ou verbos de elocução)

O verbo que introduz uma fala ou uma ideia revela o que o autor pensa sobre ela. Veja os grupos mais frequentes.

Atitude Verbos Efeito
Afirmação neutra dizer, afirmar, declarar, informar apresenta sem avaliar
Afirmação forte garantir, assegurar, sustentar, defender indica convicção
Cautela sugerir, supor, insinuar, indicar, admitir indica hesitação ou inferência
Crítica acusar, criticar, denunciar, censurar valoriza negativamente
Elogio elogiar, louvar, aplaudir valoriza positivamente
Concessão reconhecer, admitir, concordar cede um ponto
Oposição negar, refutar, contestar rejeita
Pergunta e dúvida questionar, indagar, duvidar abre discussão

Dois exemplos:

  • “O diretor garantiu que o prazo será cumprido.” (convicção do diretor, mas não necessariamente do autor)
  • “O diretor admitiu que o prazo pode não ser cumprido.” (concessão: o diretor reconhece um problema)

A escolha entre “afirmar” e “alegar”, por exemplo, muda o peso do argumento: “alegar” sugere uma afirmação que carece de comprovação.

Quem fala e quem assume?

Em textos de opinião e em reportagens, é útil separar três instâncias:

  1. O autor: quem escreve e assume o texto.
  2. A fonte citada: quem disse o que o autor relata.
  3. O leitor: a quem o texto se dirige.

A modalização ajuda a ver quando o autor assume uma ideia e quando apenas a atribui à fonte. “Segundo o secretário, a demanda caiu” não diz que a demanda caiu: diz que o secretário afirma isso. Uma alternativa de prova que atribua ao autor aquilo que o texto atribui à fonte está errada.

Adjetivos e advérbios avaliativos

Palavras como “excelente”, “lamentável”, “absurdo”, “insuficiente” e “tímido” não descrevem; avaliam. Elas revelam o posicionamento e não podem ser tomadas como dado. “A medida foi tímida” traz opinião; “a medida alcançou dez servidores” traz dado. Em redação oficial, os adjetivos avaliativos são evitados em nome da impessoalidade (veja atributos da redação oficial).

Roteiro para identificar o posicionamento

  1. Sublinhe os verbos que introduzem ideias ou falas.
  2. Circule advérbios e adjetivos avaliativos.
  3. Marque os conectivos que opõem ou concedem (porém, embora).
  4. Separe o que é atribuído a fontes do que o autor assume.
  5. Classifique o posicionamento: favorável, contrário, cético, neutro.
  6. Compare com as alternativas, rejeitando as que exageram a postura (por exemplo, “radicalmente contrário” quando o texto é apenas cauteloso).

Exemplo resolvido

Texto autoral: “Segundo a gerência, o novo sistema reduzirá os erros. Os servidores, porém, temem que a migração seja apressada. Parece inevitável uma fase de adaptação difícil, mas seria precipitado abandonar a mudança.”

  • “Segundo a gerência”: atribui a afirmação à gerência.
  • “temem”: verbo de sentimento que indica receio dos servidores.
  • “Parece inevitável”: modalização de probabilidade com avaliação.
  • “seria precipitado”: avaliação do autor, em futuro do pretérito (hipótese).

Posicionamento do autor: favorável à mudança, com cautela, pois reconhece dificuldades, mas rejeita abandonar a mudança.

Exercícios

  1. Qual a diferença de compromisso entre “O ministro afirma que…” e “O ministro insinua que…”?
  2. Classifique o advérbio em “Felizmente, o prazo foi ampliado.”
  3. “Segundo o relatório, a produção caiu.” O autor afirma que a produção caiu?
  4. Em “Talvez a medida funcione”, que tipo de modalização há?
  5. Em “É preciso rever o procedimento”, qual a atitude do autor?
  6. “O deputado alegou que não sabia.” Que efeito tem o verbo “alegou”?

Gabarito

  1. “Afirma” apresenta a ideia de forma direta; “insinua” sugere sem dizer claramente, com tom de suspeita.
  2. Avaliativo (aprovação do fato).
  3. Não. Ele atribui a afirmação ao relatório, sem assumi-la como sua.
  4. Modalização de dúvida ou probabilidade.
  5. Defende a necessidade da revisão (obrigação ou necessidade).
  6. Sugere que a afirmação carece de comprovação e que o autor não a endossa.

Erros comuns

  • Atribuir ao autor o que a fonte disse.
  • Ler “parece” ou “talvez” como afirmação categórica.
  • Ignorar o tempo verbal: o futuro do pretérito marca hipótese.
  • Tratar adjetivo avaliativo como dado objetivo.
  • Exagerar a postura do autor na resposta (radical, absoluta).

Próximos passos

Fontes e atualização

A Constituição apenas fixa o idioma oficial; não há norma jurídica sobre modalização. Os exemplos são autorais e seguem a tradição dos estudos de linguagem.

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